Faltam dias para as eleições que definirão o controle do Congresso americano, mas o eleitor médio ignora os recordes históricos de emprego e PIB. O que pesa na urna é a conta do supermercado e a sensação de que a renda parou no tempo.
Os indicadores macroeconômicos gritam força; o bolso das famílias sussurra estagnação. Quem está certo — e o que isso significa para seus investimentos?
O abismo entre o dado e a percepção
A taxa de desemprego estaciona em 4,2%, sem ultrapassar 4,5% há cinco anos — um recorde de estabilidade. Os pedidos de seguro-desemprego beiram a mínima de 57 anos e o PIB cresceu 3,4% no último trimestre, o melhor ritmo do ano.
No entanto, o índice de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan marcou mínima histórica. Para Brian Jacobsen, da Annex Wealth Management, a explicação é simples: “O sentimento é o principal fator determinante dos resultados eleitorais, mas a confiança é o principal fator determinante dos mercados”.
Enquanto o Conference Board mede a macroeconomia e mostra melhora, o Michigan pergunta se a vida cabe no orçamento. A resposta tem sido um sonoro “não”.
Por que Wall Street ignora o mau humor
O segredo está na concentração de riqueza. Os principais índices acionários bateram dezenas de recordes em 2026, turbinados pelo boom de investimentos em inteligência artificial. O investimento empresarial disparou 12,7% no último trimestre.
Como a maior parte das ações pertence às famílias de renda mais alta, a valorização dos portfólios sustentou o consumo geral. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, resumiu: “As pesquisas podem ser pessimistas, mas o comportamento do consumidor é bastante forte”.
- Desemprego: 4,2% (perto da mínima histórica)
- PIB (trimestre anterior): +3,4% annualizado
- Investimento empresarial: +12,7% annualizado
- Pedidos de seguro-desemprego: Mínima em 57 anos
A rachadura silenciosa: IA e o fantasma da estagflação
Resultados recentes de gigantes como Amazon e Intel acenderem o alerta: o apetite por infraestrutura de IA pode estar esfriando. Torsten Slok, da Apollo Global Management, alerta para um cenário de “estagflação” — crescimento fraco com inflação persistente.
A equação de risco combina três vetores: tarifas comerciais, restrição imigratória e preços do petróleo elevados pela guerra no Irã, que já dura oito meses. Se o investimento em IA recuar justamente quando a oferta trava, o PIB sente o golpe.
Poder de compra: a conta que não fecha desde janeiro de 2025
Durante a maior parte do mandato, os salários superaram a inflação. Isso mudou no início do ano. Desde a posse em janeiro de 2025, tanto o CPI quanto os salários médios subiram cerca de 5,5%.
Na prática, o poder de compra do trabalhador estagnou. A aceleração dos preços veio do choque de energia provocado pelo conflito no Oriente Médio e, curiosamente, da própria demanda por data centers de IA, que pressiona energia e mão de obra especializada.
O Federal Reserve reagiu subindo juros em setembro e sinaliza novo aperto em dezembro. O presidente Kevin Warsh chama de “remédio monetário” para evitar desemprego em massa, mas o efeito colateral imediato é o crédito mais caro.
Imóveis e juros: o golpe final no orçamento familiar
Nada ilustra melhor o aperto do que o mercado imobiliário. Taxas de hipoteca de 30 anos acima de 7% combinadas com escassez crônica de oferta tornaram a compra da casa própria inalcançável para uma fatia crescente da população.
Esse é o ponto onde a macroeconomia vira dor de cabeça doméstica — e voto de protesto.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o próximo trimestre: a ata do Fed de dezembro confirmando (ou não) a alta de juros, a sustentabilidade dos balanços de big techs no próximo ciclo de resultados e a composição do novo Congresso, que definirá se as atuais políticas tarifárias e migratórias continuam. Para o investidor, a lição fica clara: o mercado segue a confiança (lucros e juros), mas a política segue o sentimento (bolso e inflação). A divergência entre as duas é onde nascem as maiores oportunidades — e os maiores riscos.
