Uma lista sem líder único, composta por 250 técnicos e acadêmicos, obteve 53% dos votos nas eleições parlamentares da Sérvia, encerrando 14 anos de domínio do Partido Progressista (SNS) de Aleksandar Vucic. O resultado histórico tem uma origem improvável: o desabamento de uma marquise em uma estação de trem que matou 16 pessoas em novembro de 2024. Para investidores e gestores, a virada abre uma janela de incerteza regulatória imediata, mas sinaliza uma pressão estrutural por transparência em contratos estratégicos, como o de lítio com a Rio Tinto.
O gatilho: 16 mortes e o símbolo da corrupção sistêmica
Às 11h52 de 1º de novembro de 2024, a cobertura da entrada principal da estação ferroviária de Novi Sad — recém-reformada dentro de um plano de alta velocidade — cedeu. Dezesseis civis morreram. A obra era uma vitrine do governo Vucic, atrelada a investimentos chineses e à expansão da malha ferroviária.
A população não viu acidente; viu consequência. A associação imediata entre a falha estrutural e a gestão de contratos públicos incendiou protestos que começaram nas universidades e migraram para as ruas, agregando trabalhadores rurais, artistas e magistrados. Em janeiro de 2025, o primeiro-ministro renunciou. Em março, Belgrado registrou os maiores atos antigoverno da história sérvia.
De ocupação de ruas a debate técnico de seis horas
O diferencial do movimento estudantil — batizado de “Lista dos Estudantes”, embora nenhum aluno integre a chapa — foi a recusa na liderança carismática tradicional. Segundo o pesquisador Aleksandar Matkovic, os ativistas passaram dois anos debatendo economia, mineração, saúde e oligarquias em assembleias que duravam até seis horas.
O conhecimento precedeu a organização. Quando a eleição chegou, o grupo apresentou uma plataforma baseada em autogestão coletiva, algo inédito desde o colapso da Iugoslávia. O resultado: uma bancada onde 53% dos eleitos possuem doutorado e 44% são mulheres, incluindo cardiologistas, professores de química e psicólogos.
Impacto direto: Lítio, mídia estatal e nomeações políticas na mira
A nova maioria parlamentar tem três bandeiras explícitas que afetam o ambiente de negócios:
- Revisão de contratos de recursos naturais: A licença da gigante Rio Tinto para explorar lítio no projeto Jadar — vital para a cadeia europeia de baterias — foi um alvo central dos protestos. A revisão ou cancelamento é provável no curto prazo.
- Reforma da emissora estatal (RTS): Fim do controle editorial político, o que altera a dinâmica de comunicação regulatória e licenciamento.
- Fim de indicações partidárias em estatais: A promessa de gestão técnica nas empresas públicas reduz risco de captura, mas pode travar decisões operacionais durante a transição.
Cenários: Instabilidade de transição vs. prêmio de governança
O fim do sistema de partido dominante remove a previsibilidade autoritária que Vucic oferecia — equilibrando Ocidente, Rússia e China. No curto prazo, a fragmentação inerente a uma lista sem whip partidário pode gerar volatilidade legislativa e atrasos em aprovações de orçamento ou tratados.
Por outro lado, o mandato anticorrupção e a composição técnica da bancada sugerem um prêmio de governança no médio prazo. A adesão à União Europeia, bandeira oficial de Belgrado, ganha credibilidade se as reformas de mídia e justiça avançarem. O risco geopolítico reside na reação de Pequim e Moscou aos novos rumos de Belgrado.
O que observar daqui para frente
Os primeiros 100 dias do novo parlamento dirão se a “autogestão coletiva” viabiliza governabilidade ou paralisia. Pontos de atenção imediatos: a votação da nova lei de mídia, o parecer técnico sobre a licença ambiental da Rio Tinto e a sinalização do novo governo sobre o acordo de associação com a UE. Empresas expostas a infraestrutura, energia e mineração nos Bálcãs devem monitorar a capacidade de execução orçamentária dessa coalizão atípica — o teste real não é a posse, mas a primeira votação de mérito.
