Uma única câmera com inteligência artificial fez as autuações dispararem 28 vezes em um trecho da Dom Pedro I, em Campinas. O salto expõe uma falha histórica na fiscalização e acende um alerta para quem roda pelas estradas paulistas. O que mais essa tecnologia está enxergando que os radares tradicionais ignoravam?
O salto brutal nos números da Dom Pedro I
Entre abril e agosto, o equipamento registrou 3.157 infrações. No ano inteiro de 2025, no mesmo ponto, foram apenas 281. A média mensal saltou de 23 para 631 multas — cerca de 21 flagrantes por dia. O investimento da concessionária Rota das Bandeiras foi modesto: aproximadamente R$ 50 mil por câmera.
O perfil das infrações surpreende pela simplicidade. Quase metade das autuações pegou caminhoneiros trafegando irregularmente pela faixa da esquerda. Outros 40% flagraram motoristas ou passageiros sem cinto de segurança. Comportamentos de alto risco que, até então, escapavam ao olho humano pela velocidade do tráfego.
O mapa da expansão: Raposo Tavares e Rodoanel
O fenômeno não é isolado. Na Raposo Tavares, duas câmeras entraram em operação em 3 de agosto. No primeiro mês, o sistema gerou 2.316 alertas de possíveis infrações. Desse total, 1.386 eram por falta de cinto e 930 por uso de celular ou fones ao volante. A Polícia Militar Rodoviária ainda valida cada imagem antes de emitir a multa.
Já no trecho Sul do Rodoanel Mário Covas, a dinâmica foi diferente. Uma câmera em teste desde maio mostrou queda de 30% nos alertas diários entre junho (125) e setembro (87). A hipótese mais forte é a mudança de comportamento dos condutores ao perceberem a fiscalização constante.
Segurança viária: os dados que importam para o negócio
Além da arrecadação, há indicadores de redução de acidentes. No trecho monitorado da Raposo Tavares (km 15 a 20), as ocorrências caíram 22% em julho e agosto na comparação com 2025. O dado mais expressivo: acidentes com vítimas graves ou fatais despencaram 80%, passando de cinco para um no período.
Especialistas alertam, contudo, para a correlação. As autuações com IA começaram apenas em 3 de agosto, enquanto o levantamento considera julho e agosto. Outras medidas de engenharia e sinalização também atuaram na região.
- Dom Pedro I (SP-065): 3.157 multas em 5 meses (média 631/mês).
- Raposo Tavares (SP-270): 2.316 alertas no 1º mês (cinto + celular).
- Rodoanel Sul (SP-021): Queda de 30% nos alertas/dia em 4 meses.
- Rede estadual: Quase 100 câmeras com IA ativas em concessões.
Como funciona a “mente” por trás da lente
Diferente dos radares de velocidade, esses equipamentos fazem leitura de imagem. Identificam ausência de cinto, manuseio de celular e posição irregular de veículos pesados. O sistema faz a triagem inicial e dispara alertas para Centros de Controle Operacional. Um policial rodoviário analisa cada frame antes da autuação — a IA não multa sozinha.
Segundo a PMRv, o foco estratégico vai além do trânsito. A mesma rede auxilia no combate à criminalidade: leitura de placas identifica veículos roubados, clonados ou ligados a atividades ilícitas em tempo real.
O que observar daqui para frente
A Artesp contabiliza mais de 4 mil câmeras de monitoramento, 350 leitores de placa e 1.200 equipamentos “inteligentes” (funções diversas) nas concessões paulistas. A instalação avança para Anhanguera, Adhemar de Barros, e trechos no interior (Ribeirão Preto, Franca, Presidente Prudente). Em Barueri, um novo Centro de Operações Rodoviárias integrará trânsito, segurança e gestão de crises.
Para gestores de frota e investidores em logística, o recado é direto: a conformidade com cinto de segurança, uso de celular e disciplina de faixa deixou de ser item de “consciência” para ser variável de custo operacional mensurável. A tecnologia removeu a variável “sorte” da equação de fiscalização.
