Uma única câmera com inteligência artificial fez a média mensal de multas saltar de 23 para 631 em um trecho urbano da rodovia Dom Pedro I, em Campinas. Um aumento de 28 vezes em apenas cinco meses que expõe comportamentos de risco invisíveis à fiscalização convencional. Mas o que essa tecnologia realmente está capturando — e por que os acidentes também estão caindo ao mesmo tempo?
O salto nos números: Dom Pedro I vira caso de estudo
Dados obtidos exclusivamente pelo UOL Carros junto à concessionária Rota das Bandeiras detalham o fenômeno. Entre abril e agosto de 2026, um único equipamento registrou 3.157 autuações no trecho urbano de Campinas. No mesmo ponto, durante todo o ano de 2025, foram apenas 281 — uma média de 23 por mês.
O desdobramento surpreende até os operadores. “Surpreende o fato de muitos insistirem em trafegar sem o cinto de segurança”, afirma Murilo Perez, gerente de Atendimento de Operações da concessionária. Quase metade (49%) das multas atingiu caminhoneiros que insistiram em circular irregularmente pela faixa da esquerda. Outros 40% flagrou motoristas ou passageiros sem cinto — infração que, nas palavras dele, “é algo simples, habitual, que todos que entram no veículo devem fazer antes da partida”.
- 3.157 multas em 5 meses — média de 631/mês com IA (abr-ago/2026).
- 281 multas em 12 meses — média de 23/mês sem IA (2025).
- 49% — caminhões na faixa da esquerda.
- 40% — motoristas/passageiros sem cinto.
Além da velocidade: o que a IA realmente “vê” nas pistas
Diferente dos radares tradicionais, estes equipamentos analisam imagens em tempo real para identificar infrações de comportamento. O sistema reconhece uso de celular ao volante, ausência de cinto de segurança e circulação irregular de caminhões em faixas restritas.
Após triagem automática, alertas vão para Centros de Controle Operacional onde policiais rodoviários verificam cada imagem antes de autuar. A tecnologia não substitui o agente — ela amplia sua capacidade de flagrar o que olhos humanos perdem em frações de segundo, especialmente em fluxo rápido ou à noite.
Segundo a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), o foco principal do uso da inteligência artificial é apoiar o combate à criminalidade nas rodovias, inclusive por meio do reconhecimento de veículos com registros de roubo ou suspeita de clonagem.
Efeito cascata: fiscalização eletrônica reduz acidentes reais
Na Raposo Tavares, trecho monitorado entre km 15 e 20 registrou queda de 22% nos acidentes (Jul-Ago 2026 vs 2025). Vítimas fatais ou graves caíram 80% no mesmo período — de cinco para uma. No trecho Sul do Rodoanel, trecho com média de 117 mil veículos/dia, alertas recuaram 30% entre junho e setembro — indício forte de mudança de comportamento dos condutores.
- -22% — acidentes em trecho com câmeras na Raposo Tavares (Jul-Ago).
- -80% — vítimas fatais/graves no mesmo trecho e período.
- -30% — alertas de infração no trecho Sul do Rodoanel em 4 meses.
Investimento e expansão: o mapa das próximas câmeras
A concessionária investiu aproximadamente R$ 50 mil na primeira câmera da Dom Pedro I e pretende ampliar: mais duas devem entrar em operação em novembro de 2026 e uma quarta está prevista para o início de 2027. Na Raposo Tavares, duas câmeras começaram em agosto e o sistema deve se expandir para outros trechos das rodovias Raposo Tavares e Castello Branco.
Segundo a Artesp, quase 100 câmeras com inteligência artificial já operam nas rodovias concedidas do estado, entre mais de 4 mil câmeras de monitoramento em tempo real e cerca de 350 equipamentos de leitura automática de placas. A instalação de novos equipamentos está prevista em diferentes concessões, com estudos para levar o sistema a outras rodovias paulistas, incluindo trechos de Ribeirão Preto, Araraquara, Franca e Presidente Prudente.
O que observar daqui pra frente
Para o empresário do setor de transporte, investidor em tecnologia viária ou profissional que vive na estrada, o cenário se desenha com nitidez: a fiscalização eletrônica com IA saiu do piloto e virou rotina. A combinação de aumento massivo na detecção de infrações comportamentais — cinto, celular, faixa — com redução simultânea de acidentes graves cria um novo paradigma de gestão de risco. Vale acompanhar os editais de expansão da PMRv e das concessionárias, os dados consolidados de autuações versus alertas, e o cronograma de implantação do centro de operações rodoviárias em Alphaville — este último deve integrar monitoramento, criminalidade e gestão de incidentes graves em tempo real.
