Aliados de Lula iniciaram uma cruzada aberta contra o mercado financeiro dias antes da decisão de juros mais aguardada do ano. A Bolsa já tombou 17,5% em uma semana — o pior desempenho desde o início da pandemia. O que vem a seguir pode definir o rumo da economia em 2025.
A investida não partiu de figuras secundárias. Senadores eleitos, ministros de Estado e a cúpula do PT subiram o tom simultaneamente, usando palavras como “chantagem”, “terrorismo” e “especulação” para descrever a reação dos agentes financeiros à reeleição.
O estopim: ruiz costa quebra o protocolo
Na sexta-feira (30), o senador eleito Rui Costa (PT-BA) deu o pontapé inicial. Em entrevista, afirmou que o setor financeiro “precisa pensar no país” e comparou formadores de expectativa a um dono de contrato de asfalto que infla preços para ganhar mais do governo.
A analogia foi deliberada. Costa sugeriu que analistas manipulam projeções fiscais para forçar juros mais altos — o que engorda ganhos de quem vive de renda fixa. Não apresentou provas, mas o recado foi captado: o governo não aceitará passivamente a precificação de risco.
Boulos eleva a temperatura: “anular a democracia”
No sábado (31), Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral, foi além. Classificou o debate sobre ajuste fiscal como “chantagem de mercado contra a vontade popular”. Para ele, cortes devem mirar supersalários, desonerações e emendas impositivas — nunca programas sociais.
A fala sinaliza a linha de defesa do Planalto: qualquer aperto fiscal será enquadrado como ataque aos mais vulneráveis. A estratégia blinda o governo à esquerda, mas assusta quem financia a dívida pública.
Gleisi resgata artigo de Lara Resende para turbinar narrativa
No domingo (1º), a ex-ministra Gleisi Hoffmann usou um texto de André Lara Resende — um dos pais do Plano Real — para acusar analistas de “confundir interesse dos rentistas com racionalidade econômica”. O termo “ofensiva terrorista” apareceu em sua publicação.
O ruído forçou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a negar publicamente qualquer estudo sobre tabelamento de juros. O presidente do PT, Edinho Silva, fechou o cerco: “O único que fala em nome do governo na economia é Durigan”.
O que os números mostram até agora
- Ibovespa: -17,5% na semana (maior queda desde março/2020)
- Dólar: pressão compradora sustentada acima de R$ 5,60
- Juros futuros (DI jan/2027): subiram mais de 150 pontos-base em cinco sessões
- Selic atual: 13,75% ao ano
O movimento não é apenas especulativo. A depreciação cambial pressiona inflação via importados, enquanto a incerteza fiscal eleva o prêmio de risco. Ambos tornam o trabalho do Banco Central mais duro.
Copom na quarta-feira: o dilema de Campos Neto
O Comitê de Política Monetária decide a Selic em 4 de dezembro. A aposta majoritária entre economistas: interrupção do ciclo de cortes iniciado em março. Manter juros em 13,75% seria a resposta técnica ao choque de expectativas.
Para o governo, porém, juros altos significam inadimplência recorde, varejo em crise e crescimento travado. Lula já chamou a autonomia do BC de “ampliação da influência do mercado” e defendeu que o presidente possa discutir política monetária diretamente com a autoridade.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o próximo capítulo: a ata do Copom (que revelará o balanço de riscos), a tramitação do Orçamento 2025 no Congresso (teste real de disciplina fiscal) e a comunicação do Ministério da Fazenda nos próximos dias. Se Durigan conseguir separar o ruído político da sinalização técnica, o mercado pode reassentar. Caso contrário, a volatilidade tende a persistir — e a conta, como sempre, cai no colo de quem produz e consome.
