Economia

Milei derruba inflação a 30%, mas 32 mil empresas fecharam: o lado oculto do “milagre”

Fábrica argentina com máquinas paradas e operários desempregados, ilustrando recessão sob governo Milei
Fechamento de 32 mil empresas expõe recessão oculta enquanto inflação cai na Argentina de Milei

Desde dezembro de 2023, mais de 32 mil empresas argentinas encerraram as atividades — um choque de 6% no tecido produtivo nacional. O dado, do centro de estudos Fundar, expõe a face menos comentada do plano de estabilização: a recessão bate à porta justamente quando a inflação cede.

Em uma fábrica de meias em Buenos Aires, metade das máquinas parou. As vendas desabaram 40% e 30% dos funcionários foram demitidos. O dono resume o drama: “O consumo caiu de forma muito acentuada”.

O consumo que move o PIB está encolhendo

O consumo das famílias responde por dois terços do PIB argentino. Nos primeiros nove meses do ano, as vendas no varejo recuaram 2,7% na comparação anual, segundo a consultoria Scentia. Supermercados, pequenos comércios e e-commerce sentem o mesmo freio.

Com a renda comprimida, a pobreza saltou para quase um terço da população. O “milagre” da desinflação — de 200% para 30% ao ano — ainda não chegou à mesa do argentino médio.

Dois ritmos, uma mesma economia

Nem todo setor sangra. Energia, mineração e agronegócio surfam a onda de exportações e investimentos em óleo, gás de xisto e lítio. Mas a força desses polos não compensa o colapso da indústria voltada ao mercado interno.

  • Têxtil e confecção: expostos a importados asiáticos mais baratos.
  • Automotivo e construção: dependentes de crédito e confiança do consumidor.
  • Varejo: amarga a queda real do salário.

Dados oficiais de agosto mostram indústria a -3,2%, comércio a -3,5% e construção a -2,5% no ano.

Recessão técnica já é consenso

O PIB encolheu 0,6% no segundo trimestre. A consultoria Analytica projeta nova contração de 1,5% no terceiro — o que configuraria recessão técnica (dois trimestres seguidos de queda). Os números oficiais saem em novembro.

Economistas preveem recuperação apenas em 2026, num cenário de “altos e baixos” que dificilmente melhora o bolso das famílias antes da eleição presidencial de outubro de 2027.

A paciência do eleitor tem data de validade

Pesquisa Giacobbe y Asociados de outubro mostra aprovação de Milei em 36% e desaprovação em 56%. O presidente, contudo, descarta mudança de rota: chamou de “estupidez colossal” a ideia de que as pessoas não conseguem pagar as contas.

Um porta-voz do governo reiterou que o crescimento nunca é uniforme e que o programa será mantido.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão o desfecho político-econômico: a velocidade da recomposição salarial real, a capacidade do setor exportador de gerar empregos formais em escala e a tolerância social a mais um ano de ajuste. Se a “economia em dois ritmos” persistir, a pressão por alguma flexibilização — cambial, tarifária ou fiscal — deve crescer no Congresso e nas ruas bem antes de 2027.