As importações chinesas de produtos agrícolas americanos — exceto soja — despencaram para o patamar mais baixo desde 2019, primeiro ano da guerra comercial entre as duas potências. Entre janeiro e setembro, o volume somou apenas US$ 7,2 bilhões, bem aquém da meta anual de US$ 17 bilhões firmada no acordo de “Fase 1”. A dúvida que fica: Pequim está descumprindo o combinado ou apenas adiando as compras?
O buraco negro nas commodities “não-soja”
A soja tem acordo à parte e caminha para cumprir a cota. O problema está no restante da cesta: milho, sorgo, carnes e etanol. Dados oficiais mostram que o ritmo atual exigiria uma aceleração histórica nos três meses finais do ano para fechar a conta.
Especialistas ouvidos pelo mercado divergem sobre a contagem do prazo. A Casa Branca não esclareceu se a meta proporcional de 2026 já vigora ou se depende da conclusão dos cortes de tarifas prometidos por Pequim — o que ainda não aconteceu. Essa ambiguidade jurídica travou o planejamento de tradings e produtores rurais nos EUA.
Por que o milho e o sorgo travam na porta da China
Dois fatores estruturais explicam a paralisia, além da geopolítica:
- Oferta interna recorde: A China colheu safras volumosas de milho e recomposto o plantel de suínos, derrubando a necessidade de grãos importados.
- Concorrência agressiva: O Brasil entrou forte. Desde setembro de 2025, o sorgo brasileiro tem acesso livre ao mercado chinês e já embarcou 1,7 milhão de toneladas, com mais 1 milhão programado. Os EUA exportaram 3,7 milhões até agosto, mas as vendas estancaram nos últimos quatro meses.
No milho, o cenário é semelhante. Em 2021, o pico da relação bilateral, a China comprou US$ 5,6 bilhões (cerca de 20 milhões de toneladas) do grão americano. Para a safra 2026/27, a COFCO Futures — braço de uma estatal chinesa — projeta míseras 900 mil toneladas dos EUA, citando falta de competitividade de preço.
Carnes: barreiras sanitárias e preço travam o fluxo
O setor de proteínas enfrenta um “efeito tesoura”: custos altos nos EUA e oferta farta na China.
- Suínos e frango: A recuperação do rebanho chinês derrubou a demanda por importação.
- Bovinos: O ciclo de baixa do rebanho americano encareceu a carne. Some-se a isso o fato de que metade da capacidade de abate dos EUA segue sem habilitação sanitária para exportar à China. Em maio, Pequim renovou licenças de 400 frigoríficos, mas cerca de 50% da capacidade continua barrada, algumas por resíduos de substâncias não aprovadas pelo padrão chinês.
A carta na manga: empresas estatais
Analistas convergem para um cenário: sem compras de mercado, a meta de US$ 17 bilhões só será batida se Pequim acionar suas tradings estatais (COFCO, Sinograin) para fazer aquisições dirigidas, fora da lógica de preço. “É difícil chegar lá sem compras dirigidas fora das condições normais de mercado”, resume Darin Friedrichs, da Sitonia Consulting.
Essa decisão é, essencialmente, política. Funciona como um termômetro da relação bilateral: se a China quiser sinalizar boa vontade antes de eventuais negociações tarifárias, abre o cofre das estatais. Se não, o acordo vira letra morta.
O que observar nas próximas semanas
Três gatilhos ditam o desfecho deste ano e o tom de 2026:
- Definição do USTR sobre como será calculada a meta proporcional para o próximo ciclo.
- Movimentação de estoques estatais chineses — sinais de licitações públicas para milho/sorgo indicam intervenção.
- Habilitação dos frigoríficos remanescentes — se a China liberar os 50% restantes, a carne bovina pode dar um fôlego de última hora.
Para o investidor e o trader, a lição é clara: não aposte no cumprimento cego de acordos comerciais quando a economia doméstica do comprador dita o ritmo. O fluxo real segue a competitividade e a política, não o papel assinado.
