Economia

Petróleo a US$ 115: Por que o preço ignora a oferta recorde do Golfo?

Gráfico mostra barril de petróleo Brent a US$ 115 com petroleiros no Golfo Pérsico ao fundo
Petróleo Brent atinge US$ 115 apesar de oferta recorde do Oriente Médio

O barril do Brent toca US$ 115, nível visto apenas no auge da crise em abril, enquanto as exportações do Oriente Médio voltam a fluir com força. O paradoxo expõe uma realidade incômoda: fundamentos de oferta e demanda já não ditam sozinhos o preço da energia global.

O retorno voraz da China reorganizou o tabuleiro

Em março, Pequim travou as exportações de derivados para proteger estoques internos. O efeito foi imediato: as importações de bruto despencaram 6 milhões de barris por dia (bpd) em quatro meses, amortecendo o maior choque de oferta da história.

A virada veio em junho. Com a trégua diplomática e margens de refino recordes fora do eixo Rússia-Oriente Médio, a China liberou as vendas externas. Desde julho, as compras de bruto dispararam 3 milhões de bpd acima do piso de junho, engolindo parcela significativa do volume extra que o Golfo colocou no mercado.

Dados da FGE NexantECA mostram que, nas três primeiras semanas de outubro, o ritmo importador chinês seguiu robusto, funcionando como uma esponja para a produção adicional de Riad e aliados.

O frete virou vilão: custo de transporte salta de 7% para 30%

Não é apenas o volume que aperta. A logística se tornou um fator de alta autônomo. Dois movimentos simultâneos secaram a frota de petroleiros disponível:

  • Compra no “spot”: A China abandonou contratos de longo prazo e passou a caçar barganhas no mercado à vista, criando demanda errática e cara por navios.
  • Frota fantasma no Estreito de Ormuz: O aumento das exportações iranianas exige manobras complexas — navios estatais cruzam o estreito às escuras, transferem carga no Golfo de Omã para tanqueiros convencionais que ficam dias parados esperando.

Resultado: o frete, que historicamente representava 4% a 7% do custo do petróleo entregue na China, saltou para 25% a 30% em outubro, segundo a Argus Media. O repasse é direto para o preço final.

Prêmio geográfico alarga abismo entre petróleos “ricos” e “pobres”

O encarecimento do transporte não atinge todos igualmente. Produtores distantes — América Latina, África Ocidental — são forçados a conceder descontos agressivos para competir. Já o petróleo do Mar do Norte, próximo aos grandes centros de consumo europeus, comanda prêmio cheio.

Essa distorção empurrou o spread entre as referências mais baratas e as mais caras para quase US$ 60 por barril, puxando a cotação do Brent (referência global) para cima artificialmente.

O “prêmio do medo”: US$ 20 a mais que o valor justo

Para o JPMorgan Chase, o Brent deveria valer cerca de US$ 20 a menos. A diferença é o prêmio de risco geopolítico. Apenas em outubro, o Irã atacou pelo menos 30 embarcações — recorde mensal desde o início do conflito. Os houthis, no Iêmen, miraram oleodutos, aeroportos e refinarias sauditas.

O Morgan Stanley mapeou que, em sete dos oito dias de maior volatilidade (oscilação superior a US$ 2,50), o gatilho foi notícia sobre negociações de paz ou escalada bélica. A liquidez enxuta do mercado futuro amplifica cada manchete.

Cenários: das urnas americanas ao barril a US$ 140

O calendário eleitoral dos EUA dita o ritmo de curto prazo. A expectativa é que decisões militares fiquem para depois de 3 de novembro. Dois caminhos se desenham:

  • Desescalada: Se Washington recuar, analistas projetam queda rápida, em dias, dada a folga atual de estoques chineses e reservas estratégicas da OCDE.
  • Conflito total: Bombardamentos amplos, com retaliação iraniana e houthi em larga escala, poderiam catapultar o barril para US$ 130–140, estima Jim Burkhard (S&P Global).

A curva futura do Brent, as margens de refino e os contratos de frete para 2025-2027 precificam hoje a hipótese de interrupção prolongada. O pânico de abril deu lugar a uma resignação cara: o mercado convive com o risco, mas não o ignora.

O que observar daqui para frente

Três variáveis decidirão se a conta do petróleo segue inflacionada ou se alivia no balanço das empresas: a postura da Casa Branca pós-eleição, a capacidade da China de manter o apetite por bruto no mercado à vista e a evolução dos ataques no Estreito de Ormuz. Enquanto a “frota fantasma” monopolizar tanqueiros e o medo ditar prêmios de US$ 20, o custo da energia permanecerá descolado da simples aritmética de barris produzidos.