Justiça

O gesto que travou ACM Neto na Bahia: o preço de apostar em Flávio Bolsonaro

ACM Neto e Flávio Bolsonaro em evento político na Bahia durante campanha de 2026
Aliança entre ACM Neto e Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026 na Bahia

O apoio de ACM Neto a Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026 custou caro ao projeto de ampliar a oposição ao PT na Bahia. O ex-prefeito de Salvador viu o adversário petista, Luiz Inácio Lula da Silva, ampliar a vantagem no estado em mais de 820 mil votos, enquanto o candidato bolsonarista avançou apenas 166 mil.

O movimento reforçou a imagem de “antilulista” que Neto tentava evitar, segundo cientistas políticos. A consequência prática aparece nos números: o ex-presidente saltou de 66,17% para 71,31% dos votos válidos baianos entre um turno e outro. Flávio Bolsonaro saiu de 28,53% para 28,69% — um ganho marginal de 0,16 ponto percentual.

O placar nos municípios conta a história

Dos 417 municípios baianos, Flávio Bolsonaro superou Lula em apenas quatro — e em todos eles já havia vencido no primeiro turno. O mapa eleitoral não mudou; apenas confirmou a força do petismo no interior.

  • Buerarema: 51,69% → 52,26%
  • Itamaraju: 51,67% → 51,56% (queda)
  • Teixeira de Freitas: 49,51% → 50,06%
  • Luís Eduardo Magalhães: 62,03% → 61,6% (queda)

Nas demais 413 cidades, Lula ampliou a diferença. O cientista político Ariel Calmon, da BMJ, resume: “A reputação de um político se forma com sinais acumulados. Esse é um sinal forte, difícil de apagar até 2030”.

O custo desigual: capital versus interior

O impacto da decisão não é uniforme. Em Salvador e região metropolitana, onde a base de Neto já é majoritariamente oposicionista, o desgaste tende a ser menor. O problema está no interior — exatamente onde o ex-prefeito precisa crescer para ser competitivo em uma disputa estadual.

Em 2022, Neto liderou em cinco dos 27 territórios de identidade da Bahia. Em 2026, manteve apenas três. A perda mais expressiva ocorreu no sertão, região onde o governador Jerônimo Rodrigues (PT) consolidou uma imagem de “governador municipalista”, presente nas demandas locais ao longo do mandato, não apenas em época de campanha.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: a fidelidade dos prefeitos aliados.

O teste de 2028 e a armadilha dos recursos

As eleições municipais de 2028 funcionarão como termômetro. Cidades-chave — Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e Lauro de Freitas — mostrarão se a oposição consegue se recompor ou se o campo governista (PT, PSD, Avante, MDB) amplia a hegemonia.

Calmon alerta: prefeitos de municípios pequenos dependem de verbas estaduais e federais para obras, cisternas, saneamento e escolas em tempo integral. “O eleitor do interior olha para o que chegou na cidade dele. Isso cria memória de gratidão com quem governa há 20 anos”. A tendência natural é a adesão ao palácio de Ondina.

Por que apoiar Lula também não resolveria

Uma adesão ao petismo seria lida como oportunismo, avalia Calmon. A trajetória de Neto e do seu grupo é de oposição ao PT. Além disso, a transferência de votos lulistas depende do próprio Lula — e ele estava no palanque de Jerônimo.

O risco adicional: Neto perderia parte do eleitorado anti-PT nas grandes cidades, que sustenta sua viabilidade, sem garantir ganhos no interior. No melhor cenário, a disputa ficaria mais apertada, talvez forçando um segundo turno. Mas a vitória seguiria improvável.

O cenário de 2030: janela de oportunidade

Dois fatores mudam o jogo daqui a quatro anos: Lula não estará na urna e Jerônimo não poderá concorrer à reeleição. “Não dá para descartar que o grupo discuta outro nome para encabeçar a chapa, alguém com menos desgaste acumulado”, diz Calmon.

O caminho com mais chance de sucesso, segundo os especialistas, passa por construir uma centro-direita baiana com identidade própria — que fale de gestão e problemas concretos do estado sem depender da polarização nacional. Isso exige tempo, novos nomes e presença contínua no interior.

O que observar daqui para frente

Três movimentos definirão se a oposição baiana sobrevive ou se dissolve: a capacidade de segurar prefeitos aliados nos próximos dois anos; o surgimento de lideranças regionais com capital político próprio, fora do núcleo duro do União Brasil; e a performance da gestão Jerônimo em áreas sensíveis — segurança, saúde e infraestrutura no interior. Se o governo estadual entregar resultados, o eleitorado grato não muda de lado por discursos de campanha. A oposição precisará provar que sabe governar, não apenas criticar.