A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2022 marcou a terceira alternância de poder pelo voto desde a redemocratização. Três dias após o pleito, o Ibovespa recuou 3,4%, sinalizando que o mercado precificava incerteza fiscal — não apenas a troca de governo.
O episódio expôs uma fragilidade estrutural: a transição não se encerra na apuração. O que ocorre nos 60 dias entre o resultado e a posse define a trajetória dos ativos por anos.
O choque de liquidez que ninguém precificou
No dia seguinte ao segundo turno, a Bolsa caiu enquanto o dólar subia 1,2%. O movimento não refletia apenas o resultado eleitoral. Investidores reagiam à ausência de sinalizações claras sobre a âncora fiscal que substituiria o teto de gastos.
Dados da B3 mostram que o investidor estrangeiro retirou R$ 18,7 bilhões em novembro de 2022 — o maior saque mensal desde março de 2020. A saída ocorreu antes mesmo da posse, antecipando dúvidas sobre a regra fiscal que viria.
Quatro variáveis que ditaram o cenário até 2024
- Regra fiscal: O arcabouço sancionado em agosto de 2023 limitou o crescimento real das despesas a 0,6% ao ano, mas abriu exceções para investimentos e saúde.
- Taxa Selic: O Copom manteve os juros em 13,75% até agosto de 2023, só iniciando cortes quando a inflação cedeu para 3,16% no IPCA-12.
- Câmbio: O real acumulou valorização de 8% em 2023, impulsionado por fluxo comercial recorde (superávit de US$ 98,8 bi) e diferencial de juros.
- Dívida/PIB: Subiu de 73,5% (dez/2022) para 74,4% (dez/2023), pressionada por juros nominais e expansão de gastos obrigatórios.
O efeito nas decisões de alocação
Gestores de fundos multimercado reduziram exposição a prefixados longos no quarto trimestre de 2022. A preferência migrou para ativos indexados à inflação (NTN-B) e dollar-linked — proteção contra dois cenários: dominância fiscal ou choque externo.
Empresas com receita em dólar e custos em real (exportadoras de commodities, frigoríficos, celulose) entregaram alfa médio de 22% em 2023, segundo dados da Economática. Já varejistas e construtoras, sensíveis a juros reais, acumularam perdas de dois dígitos no mesmo período.
O que a história recente não resolve
A democracia brasileira demonstrou resiliência institucional: não houve ruptura, as urnas foram respeitadas, a posse ocorreu na data constitucional. Mas o custo de financiamento do Estado permanece elevado. A curva de juros reais longa oscila entre 5,5% e 6,2% — prêmio de 200 a 250 pontos-base sobre pares emergentes.
O próximo ciclo eleitoral (2026) será o primeiro sem Lula como candidato desde 1989. A fragmentação partidária no Congresso — 23 legendas representadas na Câmara — torna qualquer reforma estrutural dependente de coalizões voláteis.
O que observar daqui pra frente
Três indicadores antecipam a percepção de risco para 2025-2026: a trajetória da dívida/PIB nas projeções do Relatório de Inflação do BC, a execução orçamentária do novo PAC (R$ 1,7 tri previstos até 2026) e a composição das comissões temáticas no Congresso após as eleições municipais de 2024.
Para o investidor, a lição de 2022 não é ideológica: é matemática. Transições geram janelas de assimetria. Quem lê os sinais fiscais nos primeiros 60 dias pós-eleição costuma se posicionar antes da precificação completa do mercado.
