O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza na terça-feira (3) uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu as apostas online no Brasil. A lista de 28 convidados expõe um desequilíbrio gritante: dez clubes de futebol, cinco associações do setor de apostas e quatro entidades de radiodifusão. Não há nenhuma representante de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância.
Quem vai dar voz a quem perde dinheiro dentro de casa?
O retrato que os números de mercado não mostram
Enquanto o debate público girava em torno de arrecadação e patrocínios, a pesquisa Mulheres & Bets — conduzida pela CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA — foi ouvir quem vive o dia a dia das apostas. Foram mais de 2 mil entrevistas e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E em todo o país.
O resultado quebra a narrativa do “entretenimento adulto”:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram;
- A maioria joga para complementar a renda (conta de luz, material escolar, festa do filho);
- Quando perdem, o buraco abre no orçamento doméstico: “Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia.
O efeito cascata na vida de quem nem joga
O dano não para no apostador. Entre mulheres que convivem com alguém que aposta:
- 14% deixaram de pagar contas;
- 1 em cada 4 relata brigas e perda de confiança;
- 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram situações onde a aposta contribuiu para violência familiar.
O silêncio pesa: 65% das que quiseram pedir ajuda para parar não o fizeram por vergonha. Essa realidade invisível explica a virada de opinião: em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição; em outubro, com a MP em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio em todo o país.
A matemática assimétrica do futebol e da saúde
O argumento econômico dos clubes é legítimo, mas precisa ser colocado na balança completa. Em 2025, a Série A recebeu cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets — 7% das receitas totais. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que entrou no futebol equivale a menos de 3% do que saiu do bolso das famílias.
Sobre a arrecadação tributária: entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais. A lei reserva 1% dessa fatia para o Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta apenas R$ 33 milhões. Em contrapartida, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões ao ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
O pedido de equilíbrio que não foi atendido
A própria Advocacia-Geral da União (AGU) reconheceu o viés da lista inicial e solicitou a inclusão de entidades como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil, incluindo a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux pedindo representação equânime. Até o momento, a ampliação se limitou ao Comitê Olímpico do Brasil e ao Ministério do Esporte.
Uma audiência pública serve para instruir uma decisão judicial. Quando ela escuta apenas quem perde receita com a proibição, a pergunta fica no ar: a serviço de quem está sendo feita essa escuta?
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as vozes. Até lá, a manutenção da proibição funciona como um freio necessário: suspender a MP antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois.
Enquanto as instituições decidem, as mulheres brasileiras já estão agindo: confrontam dívidas, tomam celulares, protegem filhos e buscam redes de apoio. Elas sabem exatamente o que querem. A sessão de terça-feira vai revelar se o Estado está disposto a ouvi-las — ou se a conta continuará sendo paga apenas por quem não tem assento à mesa.
