ACM Neto declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026 e, com isso, consolidou a própria imagem como principal antagonista do lulismo na Bahia. A decisão teve custo imediato: o ex-prefeito de Salvador viu o adversário petista ampliar a vantagem em mais de 800 mil votos, enquanto o candidato que apoiou avançou apenas 166 mil.
O resultado expõe um dilema estratégico que vai muito além de uma eleição presidencial. Para quem acompanha o xadrez político baiano, a jogada redefine as coordenadas da oposição para os próximos quatro anos — e talvez para a disputa de 2030.
O que os números mostram na prática
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 2,44 milhões de votos (28,53%). No segundo, subiu para 2,61 milhões (28,69%). Um ganho marginal de 0,16 ponto percentual. Lula, por outro lado, saltou de 66,17% para 71,31% dos válidos — um acréscimo de 820.487 votos.
O senador do PL só superou o petista em quatro dos 417 municípios baianos: Buerarema, Itamaraju, Teixeira de Freitas e Luís Eduardo Magalhães. Em todos, a margem foi apertada. Em Teixeira de Freitas, a virada foi de 49,51% para 50,06%.
O custo da identidade anti-PT
Para o cientista político Ariel Calmon, coordenador de Análise Política Subnacional da BMJ, o apoio funcionou como um “sinal forte, difícil de apagar até 2030”. Neto tentou evitar o rótulo de antilulista no primeiro turno, mantendo-se neutro. A adesão no segundo turno desfez essa ambiguidade.
O efeito não é uniforme. Em Salvador e na região metropolitana, onde a base de Neto já é oposicionista, o desgaste tende a ser menor. O problema está no interior — exatamente onde ele precisa crescer para disputar o governo do estado com competitividade.
- 2022: Neto liderou em 5 dos 27 territórios de identidade
- 2026: Manteve domínio em apenas 3
- Perda concentrada: sertão e regiões de forte presença do governo estadual
Por que o interior não virou
O eleitor do interior baiano avalia o governo de forma retrospectiva. Olha o que chegou à cidade: estrada, cisterna, energia, saneamento, escola em tempo integral. Vinte anos de gestão PT criaram uma “memória de gratidão” que o conservadorismo nos costumes não consegue converter em voto de oposição.
Nas cidades pequenas, prefeitos funcionam como ponte entre o eleitor e os recursos estaduais e federais. A máquina governista, somada à presença de Lula na urna, transformou a disputa estadual em plebiscito: está com o presidente ou contra ele.
Neto tentou corrigir o erro de 2022 — quando foi criticado pela ausência no interior — com escolha de vice, agenda de atos e propostas regionais. Mas a aproximação chegou apenas durante a campanha. “O eleitor do interior sabe distinguir quem aparece na eleição de quem está presente ao longo dos anos”, resume Calmon.
A campanha que não conversou com o território
Do lado petista, a fórmula foi testada: campanha propositiva, sem responder a ataques, mobilização orgânica de servidores, estudantes e movimentos sociais, prefeituras espalhadas pelo estado e a foto de Lula em todo material de campanha.
Já a oposição concentrou-se em Neto e em um núcleo restrito do União Brasil. Lideranças de partidos aliados tiveram pouco espaço, o que enfraqueceu a capilaridade nos territórios. Resultado: Jerônimo Rodrigues (PT) venceu no primeiro turno com 55,80% contra 43,72% de Neto — diferença superior a um milhão de votos.
O tabuleiro para 2028 e 2030
As eleições municipais de 2028 serão o primeiro teste real da capacidade de recomposição da oposição. Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e Lauro de Freitas funcionam como termômetros. Manter prefeitos aliados será o desafio imediato: muitos tendem a migrar para o lado onde há obras e recursos.
Cláudio André Souza, professor da Unilab, aponta que a base de Neto precisa ser testada nas urnas. A força do PT está atrelada a uma aliança com PSD, Avante e MDB. A montagem dos novos governos municipais dirá se essa estrutura se mantém ou racha.
O cenário que pode beneficiar a oposição
Em 2030, não haverá Lula na urna nem Jerônimo concorrendo à reeleição. Isso abre espaço. Mas aproveitá-lo exige construir uma centro-direita baiana com identidade própria — que fale de gestão e problemas do estado sem depender da polarização nacional.
Isso demanda tempo, novos nomes e presença contínua no interior. Apoiar Lula nunca foi opção viável: a trajetória de Neto é de oposição ao PT, e uma adesão repentina seria lida como oportunismo. Além disso, a transferência de votos lulistas depende do próprio Lula — que estava no palanque de Jerônimo.
O que observar daqui para frente
Acompanhe três variáveis nos próximos meses: a fidelidade dos prefeitos aliados ao União Brasil nas negociações municipais de 2028; o surgimento de lideranças regionais com discurso de gestão, não apenas de confronto nacional; e a capacidade do governo Jerônimo de manter a entrega de obras no interior sem Lula na presidência. O xadrez baiano mudou de tabuleiro — e as peças que importam agora são outras.
