Em 18 de outubro de 2022, enquanto a direita comemorava a suposta vitória antecipada no segundo turno, Gilberto Kassab assistiu ao debate na Band e cravou: “Vai ganhar o Lula”. A leitura fria das curvas de intenção de voto, no meio de um empate técnico, ditou a estratégia do PSD: ficar nas duas canoas.
Essa neutralidade calculada evitou que o partido caísse na armadilha da “onda” bolsonarista que varreu o Legislativo. O resultado nas urnas para Câmara e Senado assustou o Planalto: a sensação imediata foi a de um Congresso dominado pela oposição radical a partir de 2027.
O tranco na carroça e as abóboras
O cenário mudou de figura nos dias seguintes à derrota presidencial. Aliados de primeira hora do candidato derrotado começaram a sinalizar disposição para dialogar com o vitorioso. O isolamento dos radicais tornou-se um risco real, forçando o que Kassab chama de “reacomodação das abóboras após o tranco na carroça”.
Esse movimento resgatou o Centrão do encolhimento iminente. De coadjuvante ameaçado, o bloco retomou o posto de fiel da balança, condição que domina a política brasileira há décadas.
Como fica o tabuleiro para 2025
A nova correlação de forças desenha três eixos principais para os próximos anos:
- Governo: ganhou fôlego legislativo inesperado para aprovar pautas prioritárias.
- Centrão: reassume o protagonismo na distribuição de emendas e cargos, ditando o ritmo das votações.
- Oposição: mantém a relevância eleitoral, mas precisa escolher entre ser alternativa construtiva ou agente de obstrução.
A lógica do Parlamento não é a das urnas
Diferente da disputa eleitoral — onde a eliminação do adversário é a regra —, o Congresso funciona na moeda do consenso. Sem acordo, nenhuma das correntes avança. O aparente desequilíbrio entre o voto para o Executivo e o voto para o Legislativo, paradoxalmente, fortalece a arquitetura do entendimento.
Essa assimetria impede a concentração absoluta de poder e obriga negociações que, na prática, blindam a democracia de aventuras autoritárias de qualquer lado.
O que observar daqui para frente
A capacidade da oposição de se estruturar como força propositiva — e não apenas reativa — definirá se o Congresso será arena de embates estéreis ou fábrica de soluções. Para o empresariado e investidores, o sinal verde está na volta da previsibilidade: o Centrão no centro do tabuleiro costuma significar regras do jogo estáveis, ainda que o custo de transação permaneça alto.
