O Supremo Tribunal Federal marca para terça-feira uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu apostas online no Brasil, mas a lista de 28 convidados expõe um desequilíbrio gritante: só quem faturou com o setor terá voz.
Clubes de futebol, federações esportivas, operadoras de bets e emissoras que veiculavam a publicidade compõem a quase totalidade dos expositores. Nenhuma entidade de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância foi chamada para depor. A pergunta que fica é direta: quem vai falar pelas famílias que perderam renda, comida na mesa e, em muitos casos, a paz dentro de casa?
O que a pesquisa revelou e o mercado ignorou
Enquanto o debate público girava em torno de arrecadação, patrocínios e receitas dos clubes, o estúdio CLARICE foi a campo ouvir quem vive o problema. Em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, foram realizadas mais de 2 mil entrevistas nacionais e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E entre julho de 2024 e julho de 2025.
Os números desenham um cenário bem diferente das planilhas das operadoras:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram online
- A maioria joga para completar a renda — conta de luz, material escolar, festa do filho
- Quando perdem, o buraco abre dentro de casa: “Às vezes não tem um grão de comida porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia
O impacto transborda para quem nem aposta. Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e perda de confiança e 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram violência familiar ligada ao jogo. Vergonha impede 65% das que tentaram buscar ajuda.
O apoio popular à proibição disparou
Os dados de opinião acompanharam a revelação. Em julho, 62% das mulheres já defendiam o fim das bets contra 50% dos homens. Em outubro, com a medida provisória em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio à proibição em todo o país — salto de 13 pontos percentuais em relação a novembro de 2024. O tema migrou da editoria de economia para a pauta de família, saúde mental e proteção de crianças.
A conta que não fecha: receita vs. prejuízo social
O argumento econômico merece ser olhado por inteiro. Em 2025, clubes da Série A embolsaram cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios de bets — 7% de suas receitas totais. No mesmo período, apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O futebol ficou com menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
Sobre impostos: o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais entre fevereiro e setembro de 2025. A lei reserva 1% da parcela de políticas públicas ao Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta cerca de R$ 33 milhões. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões ao ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
Pressão por equilíbrio na escuta
A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o viés da lista original e pediu a inclusão de Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil, incluindo a CLARICE, protocolaram pedido ao ministro Luiz Fux por representação equânime. Até agora, a ampliação se limitou a Comitê Olímpico do Brasil e Ministério do Esporte — ainda no campo esportivo.
Uma audiência pública serve para instruir decisão. Quando só se ouve quem perde receita com a proibição, a suspeita é legítima: a serviço de quem ela está? Escuta parcial interessa a quem prefere manter invisível o custo humano. Quem paga já pagou antes: a mãe que quita a dívida do filho, a adolescente que aposta com CPF de adulto sem barreiras nas plataformas.
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue para o Congresso, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as vozes. Até lá, a proibição precisa ser mantida — suspendê-la antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro, escutar depois. Nas entrevistas, mulheres relatam que já agem: confrontam, negociam dívidas, tomam celulares, buscam apoio na igreja, vigiam portas de quartos. Elas sabem o que querem. A terça-feira dirá se as instituições estão dispostas a ouvi-las. O Brasil ganha quando escuta todos os lados. Perde muito quando escuta só um.
