Justiça

Policial ‘enterrou’ inquérito de Cariani? Mensagens expõem conversa suspeita

Investigador André Dziuba e influenciador Renato Cariani em investigação policial por vazamento de informações sigilosas
Polícia Civil apura conduta de investigador suspeito de beneficiar Cariani em inquérito sobre narcotráfico

A Polícia Civil de São Paulo instaurou procedimento correcional para apurar a conduta do investigador André Dziuba, suspeito de repassar informações sigilosas ao influenciador Renato Cariani durante uma apuração anterior. A medida foi anunciada após o Ministério Público (MP-SP) anexar diálogos extraídos do celular do empresário nas alegações finais do processo principal, que pede pena de até 51 anos de prisão por desvio de insumos químicos para o narcotráfico.

O teor das conversas sugere uma atuação coordenada para frear uma investigação que mirava a Anidrol, empresa de Cariani em Diadema, ainda em 2021. Mas o que exatamente dizem essas mensagens e como elas impactam o julgamento que se aproxima?

O “Dezao” e o inquérito que sumiu

Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Dziuba — lotado na área de fiscalização de produtos químicos — mantinha um canal direto com o investigado. Em novembro de 2021, o policial escreveu: “o escrivão precisa te ouvir naquele inquérito da AstraZeneca, mas isso nós vamos fazer ao seu tempo, não tem pressa”.

Meses depois, em julho de 2022, Dziuba teria orientado o influenciador sobre como proceder na oitiva e completado: “Se não der para você, deixa para outro dia, f… o escrivão”. Para os promotores, a linguagem revela uma subversão da hierarquia policial em favor do investigado.

Como a proximidade funcionava na prática

O memorial do MP descreve uma relação de troca contínua. O agente pedia dados técnicos e comerciais para subsidiar fiscalizações; em contrapartida, Cariani recebia detalhes sobre diligências, opinava sobre alvos e até sugeria concorrentes a serem verificados. Trechos-chave incluem:

  • Setembro de 2022: Dziuba admite ter feito “um relatório induzindo o delegado a não fazer mais nada” para encerrar o inquérito;
  • Janeiro de 2023: Após o arquivamento, a comemoração é explícita: “Acabou, meu. É só tomar uma”, responde Cariani: “Obrigado, Dezao! Bora tomar uma então?”;
  • Conhecimento técnico: Em 2019, ao ser questionado se uma substância era controlada, Cariani respondeu: “Controlado pela ANVISA e utilizado para aumentar o rendimento da cocaína”.

O esquema principal: Operação Hinsberg e os 59 desvios

Enquanto o inquérito da AstraZeneca era arquivado, a Polícia Federal deflagrava a Operação Hinsberg (dezembro de 2023). A apuração revelou que a Anidrol simulou 59 vendas fictícias para a farmacêutica AstraZeneca — usando e-mails falsos, notas frias e placas de veículos adulteradas — para desviar éter etílico e cloridrato de lidocaína destinados à produção de crack e cocaína.

Além de Cariani, o MP pede a condenação de Fábio Spinola Mota (apontado como elo logístico) e Rodrigo Gomes Pereira (acusado de lavar o dinheiro via depósitos em espécie). Duas rés, Roseli Dorth e Andreia Domingues Ferreira, tiveram absolvição requerida por insuficiência de provas.

Pena pode passar de 50 anos: o que está em jogo

Se a Justiça acolher integralmente a denúncia, cada réu pode pegar de 16 anos e 4 meses a 51 anos e 8 meses de reclusão em regime inicial fechado, além de multas. O cálculo considera:

  • Associação para o tráfico;
  • 59 crimes de tráfico de matéria-prima para fabricação de drogas;
  • 59 crimes de lavagem de dinheiro;
  • Aumento de 2/3 pela continuidade delitiva (Súmula 659 do STJ).

O teto de cumprimento, no entanto, é de 40 anos. Cariani responde em liberdade e sua defesa afirma que demonstrará a improcedência das teses acusatórias na fase de alegações finais defensivas.

O que observar daqui para frente

Dois movimentos paralelos ditam o ritmo agora: a Corregedoria da Polícia Civil precisa concluir o inquérito administrativo contra Dziuba — o que pode gerar novas provas ou até delação — enquanto o juiz da 2ª Vara Criminal de Diadema analisa as alegações finais de ambas as partes. A sentença deve sair nos próximos meses. Para o mercado de controle de precursores químicos, o caso expõe a fragilidade da fiscalização quando o fiscalizado vira “consultor” do fiscal.