Em 18 de outubro, véspera do segundo turno, Gilberto Kassab olhou para o empate técnico nas pesquisas e decretou: “Vai ganhar o Lula”. A leitura do presidente do PSD fez o partido fugir da debandada geral do centrão rumo a Flávio Bolsonaro e manter a neutralidade. Meses depois, essa aposta explica por que o Congresso não virou um feudo da oposição radical.
A previsão que desafiou o senso comum
Enquanto a direita comemorava a vantagem nas urnas legislativas, Kassab identificou uma curva ascendente nas intenções de voto para a Presidência. O empate não era estático; a dinâmica favorecia o petista. Por isso, o PSD recusou-se a embarcar na canoa única do bolsonarismo, preferindo equilibrar-se entre as duas embarcações na disputa final.
Essa cautela evitou que a sigla ficasse refém de um resultado adverso. A neutralidade preservou capital político para o dia seguinte, quando a composição das mesas diretoras e a distribuição de relatorias voltariam a ditar o ritmo de Brasília.
A ilusão da hegemonia absoluta no Legislativo
O desempenho estrondoso do PL na Câmara e no Senado criou uma sensação imediata: a partir de 2027, o Parlamento seria um bastião intransponível para o governo. A leitura, porém, ignorava a mecânica pós-eleitoral.
Os movimentos dos aliados de segundo turno — incluindo o partido do candidato derrotado — sinalizaram aos setores mais radicais o risco do isolamento total. A metáfora é a das abóboras na carroça: após o tranco da eleição, cada peça se acomoda no espaço que lhe cabe, e não no que desejaria ocupar.
O reequilíbrio de forças e o resgate do protagonismo
A derrota na disputa presidencial funcionou como um contrapeso inesperado. O governo federal ganhou fôlego para negociar, e o centrão foi salvo do encolhimento para reassumir o papel de fiel da balança. Quem apostou na destruição do adversário viu o tabuleiro virar a favor da negociação.
- Governabilidade: O Planalto recuperou margem para articular maiorias pontuais.
- Centrão fortalecido: Siglas como PSD, MDB e União Brasil voltam a ditar o ritmo das votações.
- Oposição contida: A relevância eleitoral só se sustenta se houver organização como alternativa, não como obstáculo permanente.
A lógica do consenso contra a da eliminação
O Parlamento não opera pela dinâmica da eliminação do oponente, regra das urnas. A lógica legislativa exige construção de consensos; sem eles, nenhuma corrente avança. Por paradoxal que pareça, o descompasso entre o voto para o Executivo e para o Legislativo favorece a arquitetura do entendimento.
Essa assimetria impede a concentração de poder excessiva em um único polo. Obriga governistas e oposicionistas a sentarem à mesa, transformando o conflito em negociação — a matéria-prima da democracia representativa.
O que observar daqui para frente
O cenário desenha um Congresso onde a governabilidade depende da capacidade de costura, não da imposição. Para o empresariado e investidores, o sinal é claro: a previsibilidade das regras do jogo aumenta quando o centro político recupera o protagonismo. Resta saber se a oposição conseguirá se estruturar como proposta concreta ou se permanecerá refém da retórica de confronto, abrindo espaço para que o centrão dite a pauta econômica e regulatória nos próximos anos.
