O fim da jornada 6×1 deve elevar a informalidade nas margens — sobretudo em micro e pequenas empresas —, mas não provocará o colapso no mercado de trabalho que setores alarmistas preveem. É o consenso entre três dos mais respeitados economistas do trabalho do país.
A transição para duas folgas semanais remuneradas começa a valer em 2025, com redução escalonada de 44 para 40 horas semanais. A pergunta que fica: como os negócios de menor porte vão absorver o custo extra sem repassar para o consumidor ou cortar vagas formais?
O que os números do IBGE mostram hoje
No segundo trimestre de 2026, a taxa de informalidade marcou 37,4% da população ocupada — 38,6 milhões de trabalhadores. É o menor patamar para o período desde 2020, mas ainda expõe um abismo regional.
- Maranhão: 56,9% de informais
- Pará: 55,9%
- Amazonas: 51,7%
- Santa Catarina: 25,4%
- Distrito Federal: 28,7%
- Mato Grosso do Sul: 29,2%
A concentração no Norte e Nordeste não é coincidência: reflete mercados de trabalho mais fragilizados e menor presença de fiscalização trabalhista.
Por que o impacto tende a ser contido
Três fatores amortecem o choque imediato. Primeiro: a maior parte da força de trabalho formal já opera na escala 5×2. Segundo: a redução de jornada será gradual, não abrupta. Terceiro: o desemprego segue em níveis historicamente baixos, o que dificulta demissões em massa — substituir um funcionário experiente custa caro.
Gabriel Ulyssea (University College London) resume: “Não vai ser hecatombe de jeito nenhum”. Ele compara ao temor que cercou a PEC das Domésticas, cujas previsões apocalípticas não se confirmaram.
Onde o risco de informalidade é real
Sergio Firpo (Insper) aponta o cenário mais provável: alta pontual de contratos “por fora” em pequenos negócios, onde a fiscalização rara cria incentivo à substituição de formal por informal. O perfil afetado? Jovens de periferias no Norte e Nordeste, que passam mais tempo sem carteira até — se — conseguirem uma vaga formal.
Marilane Teixeira (Cesit/Unicamp) discorda da inevitabilidade: “Reconhecer as dificuldades não permite concluir que haverá aumento da informalidade. Essa hipótese precisa ser demonstrada.”
O que os próprios empresários dizem
Pesquisa do Sebrae revela mudança de percepção. Em 2024, 32% esperavam impacto negativo; em 2026, caiu para 27%. Mais da metade (51%) não vê efeito relevante. As estratégias declaradas:
- Aumentar preços: 28,9%
- Reorganizar turnos: 24%
- Outras adaptações: 47,1%
As medidas do governo para conter o efeito colateral
Para evitar que o custo extra empurre microempresas para a informalidade, o Planalto prepara dois braços de apoio:
- Perdão de dívidas para empresas de eventos no Simples Nacional — nos moldes do que foi feito com MEIs
- Linha de crédito subsidiada do BNDES para pequeno porte, com liberação prevista para os próximos dias
Ulyssea defende ir além: ampliar benefícios de ser formal (acesso a compras públicas, crédito consignado) e elevar o custo de ser informal com fiscalização que alcance empresas não registradas. “O custo da informalidade é muito baixo hoje.”
A raiz estrutural que a jornada não resolve
Mesmo com a informalidade no menor nível pós-pandemia, quase 40% a 50% da força de trabalho (contando sem-carteira e por conta própria sem contribuição previdenciária) segue à margem. Dos 25,9 milhões de trabalhadores por conta própria, 16,6 milhões (64,1%) não contribuíam para a Previdência. Só 10,1 milhões dos 17,4 milhões de MEIs entregaram a declaração anual em 2025.
Firpo associa o problema à baixa produtividade e a um salário mínimo relativamente alto para a qualificação média desses trabalhadores. Custos de demissão (FGTS, aviso prévio) encarecem a formalização, concentrando os informais no entorno do piso salarial.
Ulyssea vai direto ao ponto: “A informalidade é sintoma de muitas empresas de baixa produtividade que permanecem pequenas”. A reforma trabalhista de 2017 não resolveu — o contrato intermitente teve adoção abaixo de 1%, “fracasso completo”.
O que observar daqui para frente
A transição para 40 horas semanais será o termômetro real. Três variáveis decidirão se a informalidade sobe estruturalmente ou permanece na margem: a velocidade de adesão das pequenas empresas ao crédito subsidiado, a eficácia da fiscalização em setores hoje invisíveis e a capacidade do mercado de absorver a mão de obra que hoje oscila entre formal e informal sem romper a proteção previdenciária. Para o empresário, o sinal claro: reorganizar turnos e precificar corretamente sai mais barato que o risco jurídico de manter trabalhadores “por fora”.
