Uma coordenadora da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo foi exonerada quatro dias depois de classificar como capacitista a fala de um político sobre a deficiência física do presidente Lula. A versão oficial cita “ajustes administrativos”, mas o timing levanta dúvidas que o governo não conseguiu dissipar.
Silvana Gimenes, 65, ocupava cargo de livre nomeação na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). O desligamento saiu no Diário Oficial em 27 de outubro, assinado pelo chefe da Casa Civil. Ela nunca havia sido exonerada em quatro décadas de serviço público.
O post que antecedeu a demissão
Durante o debate da TV Globo em 23 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) referiu-se a Lula como “nove dedos”. A expressão gerou repúdio imediato de entidades representativas de pessoas com deficiência. Na mesma noite, Silvana escreveu em rede social:
“Ao ouvir o 22 chamar Lula de ‘nove dedos’, apenas constatei o que sempre digo: o preconceito, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia podem estar escondidos, mas vêm sempre à tona.”
Ela completou: “Só quem sempre é alvo sabe o quanto é doloroso ser piada por ter uma deficiência, uma doença rara ou mesmo uma condição congênita”.
Versões conflitantes no governo paulista
A secretaria emitiu nota padrão: o cargo é de livre nomeação e a exoneração decorreu de “ajustes administrativos”. O secretário Marcos da Costa reforçou, em comunicado separado, que a decisão foi “de minha exclusiva responsabilidade” e baseada em “razões estritamente administrativas, relacionadas à necessidade de reorganizar atribuições e funções”.
Nenhuma das notas menciona o conteúdo da publicação da servidora. Tampouco explicam qual reestruturação justificaria a saída de uma coordenadora de Desenvolvimento de Programas às vésperas do segundo turno.
O peso da livre nomeação
Cargos de confiança permitem exoneração sem justificativa formal. Mas a legislação não impede que o motivo real seja político. O que a lei veda é a perseguição por opinião — o que, na prática, é difícil de provar quando a caneta tem respaldo burocrático.
Silvana, que se identifica como mulher LGBT com deficiência, afirmou nas redes: “Depois de 41 anos de atuação no serviço público, esta é a minha primeira exoneração. Isso não é ato falho, não é brincadeira, muito menos bobagem”.
O contexto da fala controversa
Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda aos 17 anos, em acidente de trabalho numa metalúrgica de São Paulo. A prensa quebrou; ele colocou a mão para tentar consertar. O socorro demorou quatro horas. O médico que o atendeu teria dito: “Pra que esse peãozinho quer esse dedo?”.
Flávio Bolsonaro pediu desculpas públicas ao presidente após o debate: “Não queria te ofender”. O pedido não evitou a onda de críticas nem o desgaste nas redes.
O que observar daqui para frente
- Se a secretaria publicará novo organograma que justifique a “reorganização” citada;
- Se haverá questionamento formal no Ministério Público ou na Assembleia Legislativa;
- Como o caso será usado no debate sobre proteção a servidores que manifestam posicionamentos sobre direitos humanos.
Para gestores e investidores que acompanham sinais institucionais, o episódio expõe a fragilidade de cargos técnicos sensíveis quando alinhamentos políticos se sobrepõem à missão da pasta. A Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência existe para combater capacitismo. A saída de quem o denunciou — ainda que em caráter pessoal — cria um ruído que nenhuma nota oficial consegue silenciar por completo.
