Justiça

Servidora com 41 anos de carreira cai após criticar fala capacitista: o que há por trás da exoneração?

Silvana Gimenes, servidora pública exonerada após denunciar capacitismo contra Lula, em São Paulo
Silvana Gimenes, coordenadora de direitos da pessoa com deficiência, exonerada quatro dias após criticar fala capacitista.

Uma coordenadora da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo foi exonerada quatro dias depois de classificar como capacitista a fala de um político sobre a deficiência física do presidente Lula. A versão oficial cita “ajustes administrativos”, mas o timing levanta dúvidas que o governo não conseguiu dissipar.

Silvana Gimenes, 65, ocupava cargo de livre nomeação na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). O desligamento saiu no Diário Oficial em 27 de outubro, assinado pelo chefe da Casa Civil. Ela nunca havia sido exonerada em quatro décadas de serviço público.

O post que antecedeu a demissão

Durante o debate da TV Globo em 23 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) referiu-se a Lula como “nove dedos”. A expressão gerou repúdio imediato de entidades representativas de pessoas com deficiência. Na mesma noite, Silvana escreveu em rede social:

“Ao ouvir o 22 chamar Lula de ‘nove dedos’, apenas constatei o que sempre digo: o preconceito, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia podem estar escondidos, mas vêm sempre à tona.”

Ela completou: “Só quem sempre é alvo sabe o quanto é doloroso ser piada por ter uma deficiência, uma doença rara ou mesmo uma condição congênita”.

Versões conflitantes no governo paulista

A secretaria emitiu nota padrão: o cargo é de livre nomeação e a exoneração decorreu de “ajustes administrativos”. O secretário Marcos da Costa reforçou, em comunicado separado, que a decisão foi “de minha exclusiva responsabilidade” e baseada em “razões estritamente administrativas, relacionadas à necessidade de reorganizar atribuições e funções”.

Nenhuma das notas menciona o conteúdo da publicação da servidora. Tampouco explicam qual reestruturação justificaria a saída de uma coordenadora de Desenvolvimento de Programas às vésperas do segundo turno.

O peso da livre nomeação

Cargos de confiança permitem exoneração sem justificativa formal. Mas a legislação não impede que o motivo real seja político. O que a lei veda é a perseguição por opinião — o que, na prática, é difícil de provar quando a caneta tem respaldo burocrático.

Silvana, que se identifica como mulher LGBT com deficiência, afirmou nas redes: “Depois de 41 anos de atuação no serviço público, esta é a minha primeira exoneração. Isso não é ato falho, não é brincadeira, muito menos bobagem”.

O contexto da fala controversa

Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda aos 17 anos, em acidente de trabalho numa metalúrgica de São Paulo. A prensa quebrou; ele colocou a mão para tentar consertar. O socorro demorou quatro horas. O médico que o atendeu teria dito: “Pra que esse peãozinho quer esse dedo?”.

Flávio Bolsonaro pediu desculpas públicas ao presidente após o debate: “Não queria te ofender”. O pedido não evitou a onda de críticas nem o desgaste nas redes.

O que observar daqui para frente

  • Se a secretaria publicará novo organograma que justifique a “reorganização” citada;
  • Se haverá questionamento formal no Ministério Público ou na Assembleia Legislativa;
  • Como o caso será usado no debate sobre proteção a servidores que manifestam posicionamentos sobre direitos humanos.

Para gestores e investidores que acompanham sinais institucionais, o episódio expõe a fragilidade de cargos técnicos sensíveis quando alinhamentos políticos se sobrepõem à missão da pasta. A Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência existe para combater capacitismo. A saída de quem o denunciou — ainda que em caráter pessoal — cria um ruído que nenhuma nota oficial consegue silenciar por completo.