A emergência e o CTI do Hospital Juscelino Kubitschek pararam de receber pacientes neste sábado (31), deixando a principal referência de urgência da Baixada Fluminense sem portas abertas para casos graves. A prefeitura aponta a redução drástica no repasse estadual como causa direta. O que acontece agora com quem depende da unidade?
A unidade havia sido reinaugurada em 2024 depois de treze anos fechada, consumindo R$ 26 milhões em obras pagas pelo governo do estado. Menos de um ano depois, os setores mais críticos travam.
O tamanho do corte que paralisou a emergência
Em julho, a Secretaria Estadual de Saúde publicou nova resolução alterando as regras de financiamento aos hospitais municipais. O repasse mensal para Nilópolis caiu de R$ 5,6 milhões para R$ 1 milhão — uma redução de 82% no valor que sustentava a folha e os insumos.
Pela regra anterior, a parcela era fixa. Pela nova metodologia, o teto entre julho e dezembro ficou em R$ 1 milhão ao mês. O prefeito Abraão David Neto afirmou que a queda torna inviável manter plantões médicos, enfermagem e insumos de terapia intensiva.
O que diz o governo do estado
A pasta estadual sustenta que os novos critérios foram acordados com todas as prefeituras fluminenses e visam distribuir recursos de forma mais equilibrada entre os municípios. Segundo a secretaria, os repasses integrais foram feitos até 2023 conforme as regras antigas, e o crédito de setembro — R$ 3,3 milhões — já foi transferido dentro do prazo.
Há, portanto, um desencontro entre o valor contratualizado na nova regra (R$ 1 milhão/mês) e o valor efetivamente depositado em setembro (R$ 3,3 milhões). A prefeitura não detalhou se o montante de setembro cobre o déficit acumulado desde julho.
Serviços mantidos e o que fecha de fato
- Fechados: Emergência 24h e Centro de Tratamento Intensivo (CTI)
- Mantidos: Maternidade, internações clínicas e cirurgias eletivas
A administração municipal garante que o custeio dos serviços preservados virá da ampliação do teto de Média e Alta Complexidade (MAC) junto ao governo federal. Não houve detalhamento de valores nem cronograma para essa complementação.
O relato de quem usa o hospital
Jocimaria Leal, aposentada com o marido internado na sala amarela, descreveu a unidade como a melhor da região. “Tem pessoas que vêm de outros municípios para serem atendidas aqui. Se não vier verba, vai ser um vácuo”, disse. A fala resume o risco de efeito cascata: pacientes de cidades vizinhas que recorriam ao Juscelino Kubitschek passarão a pressionar emergências já sobrecarregadas em Mesquita, São João de Meriti e Nova Iguaçu.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se a paralisação será temporária ou definitiva: a regularização do fluxo de caixa estadual nos meses restantes do ano, a velocidade de liberação do teto MAC federal prometido pela prefeitura e a capacidade das emergências vizinhas de absorver a demanda excedente. A negociação política entre município e estado — que já rendeu acordos no passado — volta ao centro do tabuleiro.
Enquanto não há definição, a orientação prática para moradores da Baixada é buscar, em casos de urgência, as UPAs 24h de Nilópolis ou as emergências dos municípios limítrofes, confirmando previamente a disponibilidade de leitos de CTI.
