O ministro Alexandre de Moraes, do STF, converteu a prisão preventiva do desembargador federal Macário Júdice em medidas cautelares com uso de tornozeleira eletrônica. Na mesma decisão, ordenou a transferência do ex-deputado Rodrigo Bacellar do presídio federal de Mossoró para o sistema prisional do Rio de Janeiro. O movimento reconfigura o tabuleiro da Operação Unha e Carne e levanta dúvidas sobre os próximos passos da investigação que apura vazamentos no Judiciário fluminense.
A decisão que mexeu no tabuleiro fluminense
Preso desde dezembro de 2025, na segunda fase da operação, Macário Júdice atuava no TRF-2. A preventiva foi substituída por monitoramento eletrônico, proibição de contato com investigados e afastamento das funções judiciais. A medida atende a pedido da defesa, que argumentou excesso de prazo e ausência de risco à instrução processual.
Simultaneamente, Moraes determinou a saída de Rodrigo Bacellar — ex-presidente da Alerj e figura central no primeiro escalão da operação — da penitenciária federal de segurança máxima. O advogado Daniel Bialski confirmou a transferência, mas o destino exato dentro do sistema estadual não foi divulgado pelo Supremo até o fechamento desta edição.
Quem são as peças centrais do xadrez
O caso gira em torno do vazamento de informações sigilosas que teriam beneficiado o ex-deputado estadual Thiago Rangel, conhecido como “TH Joias”. A investigação da Polícia Federal aponta que dados sensíveis da apuração teriam sido repassados para atrapalhar ou antecipar diligências.
- Macário Júdice: Desembargador do TRF-2, preso na fase que mirou o vazamento direto.
- Rodrigo Bacellar: Ex-presidente da Assembleia Legislativa, preso na fase anterior, apontado como articulador político.
- Thiago Rangel (TH Joias): Ex-deputado estadual, alvo central da apuração sobre esquema de joias e desvios.
O que a tornozeleira eletrônica sinaliza para o Judiciário
A substituição da prisão por monitoramento não encerra o processo, mas altera a dinâmica de pressão sobre o magistrado. Com a tornozeleira, Júdice recupera liberdade de locomoção restrita, mas segue impedido de acessar dependências do tribunal e de comunicar-se com outros investigados.
Para o meio jurídico e empresarial, a decisão reforça a tese de que o STF tem buscado calibrar a prisão preventiva em casos de colarinho branco, priorizando a preservação da instrução sem antecipar pena. O precedente pode influenciar outros pedidos de liberdade em investigações complexas que envolvam autoridades com foro privilegiado.
A movimentação de Bacellar e o vácuo de informação
A transferência de Mossoró para o Rio retira Bacellar do regime de isolamento máximo — onde o contato com o exterior é praticamente nulo — e o coloca em unidades estaduais, onde o acesso a advogados e a articulações políticas costuma ser mais fluido.
O silêncio do STF sobre o destino final do ex-deputado gera especulação. A falta de transparência sobre a unidade prisional de destino dificulta o controle social e o acompanhamento da imprensa, pontos sensíveis em casos de repercussão nacional.
Cenários para os próximos capítulos
A investigação segue em segredo de justiça, mas três vetores devem ditar o ritmo nos próximos meses:
- Colaboração premiada: A soltura de Júdice pode abrir espaço para negociações de delação, dada a proximidade do desembargador com o núcleo decisório do TRF-2.
- Recursos da PGR: A Procuradoria-Geral da República pode recorrer da conversão da prisão, alegando gravidade concreta dos vazamentos.
- Impacto político no Rio: O retorno de Bacellar ao estado reativa conexões com a Alerj e com o governo estadual, podendo influenciar a composição de comissões e votações sensíveis.
O que observar daqui para frente
Empresários e investidores com ativos no Rio devem monitorar a estabilidade das instituições locais. A Operação Unha e Carne expôs a vulnerabilidade de fluxos de informação sigilosa entre Judiciário e Legislativo. Qualquer sinal de enfraquecimento da apuração — seja por delações, seja por decisões processuais favoráveis aos investigados — pode alterar a percepção de risco jurídico e regulatório no estado. O próximo relatório da PF e eventuais manifestações da PGR sobre a soltura de Júdice serão os termômetros mais precisos da solidez do caso.
