Em 18 de outubro de 2022, uma semana antes do segundo turno, Gilberto Kassab olhou para o empate técnico nas pesquisas e decretou: “Vai ganhar o Lula”. A leitura do presidente do PSD não era chute; baseava-se na curva ascendente de intenções de voto que já despontava nos levantamentos internos.
Essa convicção explicou por que o partido recusou a corrida do centrão rumo a Flávio Bolsonaro (PL). O PSD preferiu manter a neutralidade, equilibrando-se entre as duas canoas da regata eleitoral. A aposta parecia arriscada, mas evitou que a legenda ficasse refém de um lado só.
O diagnóstico errado das urnas legislativas
O resultado das eleições para Câmara, Senado e governos estaduais assustou o Planalto. O desempenho expressivo do PL criou a sensação imediata de que o Congresso seria dominado pelo bolsonarismo a partir de 2027. A leitura linear, porém, ignorou a dinâmica pós-urna.
Os movimentos dos aliados no segundo turno — inclusive do partido derrotado — enviaram um recado claro aos radicais: o isolamento político é um risco real. A metáfora das abóboras que se acomodam após o tranco na carroça caiu como uma luva para descrever o rearranjo.
Como a derrota presidencial reequilibrou o jogo
O fracasso na disputa pelo Planalto provocou um efeito colateral inesperado: o centrão foi resgatado do encolhimento e reassumiu o papel de fiel da balança. O governo ganhou fôlego para negociar, e a oposição perdeu a narrativa de “rolo compressor” legislativo.
Veja o que mudou na correlação de forças:
- Governistas: recuperaram capacidade de articulação e agenda positiva.
- Centrão (PSD, MDB, União, PP): voltou a ser protagonista indispensável para maiorias.
- Oposição (PL): manteve a maior bancada, mas precisa escolher entre ser alternativa ou obstáculo.
A lógica do consenso impede a concentração de poder
Diferente da eleição, onde a dinâmica é a eliminação do adversário, o Parlamento funciona pela construção de consensos. Sem acordo, nenhuma das correntes em jogo avança — nem a situação, nem a oposição.
Paradoxalmente, o desequilíbrio entre o voto para o Executivo (Lula) e o voto para o Legislativo (forte viés à direita) é saudável. Ele obriga a negociação constante e impede que um único grupo concentre poder absoluto.
O que observar daqui para frente
A oposição tem capital político para ser relevante nos próximos quatro anos, mas a condição é sair da trincheira da destruição e montar uma agenda propositiva. O centrão, por sua vez, continuará ditando o ritmo das votações, cobrando preço alto por cada vitória do governo. Quem souber ler essa partitura — como Kassab leu a curva de outubro — sai na frente.
