Economia

Inflação 2027 salta para 5,3%: Dólar, fiscal e Selic… o que vem agora?

Gráfico mostra inflação 2027 projetada em 5,3% acima da meta de 3% com dólar acima de R$ 5,40
Projeção de inflação para 2027 rompe teto da meta após alta do dólar e incerteza fiscal.

A expectativa de inflação para 2027 disparou para 5,3% logo após o segundo turno, rompendo o teto da meta de 3% com folga. O gatilho foi a combinação de dólar acima de R$ 5,40 e a ausência de uma âncora fiscal crível. Mas o impacto real no seu bolso e nos juros só aparece nos detalhes que o mercado está precificando agora.

O salto nos números: Focus fica para trás

Uma pesquisa da BGC Liquidez com cerca de 30 gestores e tesourarias — grupo que costuma antecipar o relatório Focus em duas semanas — mostrou a mediana para o IPCA 2027 subindo de 4,34% para 5,3%. Para 2028, a projeção foi de 3,75% para 4,3%. Ambos os patamares superam o intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual da meta oficial.

O dado mais ruidoso: 11% dos analistas ouvidos já veem a inflação do ano que vem acima de 6%. A próxima divulgação oficial do Banco Central, prevista para terça-feira, deve confirmar a contaminação das expectativas longas.

Por que o mercado “devolveu” o prêmio de risco

Até a véspera da eleição, a curva de juros embutia cortes na Selic para 13,25% até o fim de 2026. A aposta era em contenção de despesas e câmbio mais forte. Com o resultado das urnas, essa precificação foi integralmente desfeita.

Segundo Carlos Thadeu, economista da BGC, o real de equilíbrio — sem o prêmio de risco fiscal — estaria próximo de R$ 4,50. O fechamento a R$ 5,44 explica grande parte da revisão para cima nos preços administrados, especialmente combustíveis.

Três pilares pressionando o IPCA adiante

  • Câmbio e combustíveis: O Brasil importa 30% do diesel que consome. Com o dólar pressionado, a defasagem na refinaria vira repasse direto ao consumidor.
  • Fim da escala 6×1: A migração para 5×2 exige, na estimativa da BGC, pelo menos 10% a mais de mão de obra, elevando custos unitários em setores intensivos em gente.
  • Desancoragem fiscal: A dívida bruta já beira 83% do PIB, maior nível em cinco anos. O déficit projetado de R$ 67,3 bilhões (0,5% do PIB) em 2023 empurra a trajetória para cima.

A conta fiscal que não fecha sozinha

Economistas calculam que são necessários R$ 250 bilhões de ajuste primário nos próximos quatro anos para estabilizar a dívida. O ideal seria levar o superávit a 2% ou 2,5% do PIB até 2030, sem artifícios contábeis. Por enquanto, não há sinalização clara de que a política fiscal caminhará nessa direção.

Selic: pausa na quarta e viés de alta em 2024

A curva futura precifica manutenção dos 13,75% na reunião do Copom da próxima quarta-feira (4), com apenas 20% de chance de corte de 0,25 ponto. Para 2024, o mercado já embute alta acumulada de 1,5 ponto percentual na taxa básica.

Em resumo: o custo de capital deve permanecer elevado por mais tempo, comprimindo valuations e adiando decisões de investimento de longo prazo.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o ritmo da desinflação nos próximos trimestres: a velocidade de aprovação do arcabouço fiscal no Congresso, a trajetória do dólar frente à taxa de equilíbrio de R$ 4,50 e a resposta da inflação de serviços ao mercado de trabalho apertado. Se o fiscal não entregar, o Copom terá de fazer o trabalho suso sozinho — e a conta cai no spread bancário e no crédito para empresas.