Dois dos maiores centros de compras da Baixada Santista acabam de entregar uma exigência legal que vai além da acessibilidade física: a regulação emocional. O Praiamar Shopping, em Santos, e o Brisamar Shopping, em São Vicente, colocaram em operação salas de descompressão sensorial desenhadas para atender pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências durante crises de sobrecarga.
A movimentação não é apenas filantropia. Ela atende à Lei Estadual nº 18.183/2025, que torna obrigatória a instalação desses espaços em shoppings com fluxo superior a 2 mil pessoas por dia no estado de São Paulo. Para o varejo, o recado é claro: inclusão virou item de compliance.
Como funcionam os novos ambientes
No Praiamar, a sala já está aberta ao público no mezanino. O espaço opera no mesmo horário do shopping: de segunda a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 11h às 22h. O acesso é livre para crianças, jovens e adultos que precisem de um refúgio contra estímulos como ruído alto, luz intensa e aglomeração.
Já no Brisamar, a inauguração está marcada para 3 de dezembro, às 10h, no 4º piso, ao lado do elevador. Lá, o protocolo exige uma etapa extra: o visitante deve solicitar a liberação à equipe de segurança. O horário de funcionamento espelha o do Praiamar.
Tecnologia a serviço da autorregulação
Não se trata de uma sala vazia com paredes acolchoadas. Os projetos preveem equipamentos específicos para estimular a autorregulação sensorial. No Brisamar, a lista inclui:
- Painel sensorial interativo;
- Tubo de bolhas com iluminação LED;
- Fibras ópticas;
- Discos táteis de texturas variadas;
- Instrumentos musicais de baixa intensidade.
A seleção dos itens visa oferecer estímulos controlados — táteis, visuais e sonoros — que ajudem o usuário a reduzir a ansiedade e retomar o equilíbrio emocional antes de retornar à circulação comum.
O impacto direto no modelo de negócio
A legislação atinge em cheio a operação de grandes empreendimentos. Shoppings que ignorarem a norma correm risco de sanções administrativas, mas o custo de adequação tende a ser baixo frente ao faturamento. O ganho real, porém, está na retenção de público.
Famílias com membros neurodivergentes costumam evitar locais de alta estimulação sensorial por falta de suporte. Ao oferecer um “porto seguro” interno, o centro de compras transforma um público que sairia às pressas em clientes que permanecem mais tempo, consomem alimentação e lazer e fidelizam a marca.
O que observar daqui para frente
A lei estadual estabelece um precedente regulatório forte. A tendência é que outros estados sigam o mesmo caminho, padronizando a exigência em todo o território nacional. Para investidores e gestores de ativos imobiliários comerciais, a lição é imediata: projetos de expansão ou retrofit já devem nascer com a previsão orçamentária e arquitetônica dessas salas.
Além da estrutura física, a capacitação da equipe de segurança e atendimento torna-se diferencial competitivo. Saber acolher sem estigmatizar, orientar o fluxo e garantir privacidade será tão importante quanto a instalação dos tubos de bolhas e fibras ópticas. Quem tratar inclusão como infraestrutura essencial — e não como ação de marketing sazonal — liderará a próxima década do varejo físico.
