Economia

O segredo que o mercado não quer que você saiba sobre a dívida pública…

Gráfico da dívida pública brasileira com juros recordes e manifesto de 50 economistas
Juros consomem R$ 1,1 tri em 12 meses — 14 vezes o déficit primário, segundo manifesto de economistas.

Cinquenta economistas acabam de assinar um manifesto que desafia a narrativa dominante em Brasília e na Faria Lima: o buraco nas contas públicas não é causado por gastos sociais, mas pelos juros mais altos do mundo. A conta? Mais de R$ 1,1 trilhão em doze meses — catorze vezes o déficit primário.

O documento, divulgado na sexta-feira (30), expõe uma pressão que o governo eleito enfrenta para adotar o programa de cortes do candidato derrotado. A proposta alternativa mexe em três pilares que afetam diretamente investidores e empresários: tributação do topo, meta de inflação e regras fiscais.

O peso invisível que esmaga o orçamento

Enquanto o debate público foca em “ajuste de despesas”, os números do Banco Central contam outra história. A dívida bruta saltou de 71,7% do PIB (2022) para 82,9% (agosto de 2026). O vilão não é a previdência nem o Bolsa Família: são os juros reais, líderes no ranking global da Moneyou.

Em valores absolutos, o custo da dívida consumiu 8,9% do PIB. Para comparar: o déficit primário projetado é de R$ 82 bilhões. A conta dos juros é 14 vezes maior. A Selic a 13,75% ao ano não corrige choques de oferta como energia e alimentos — que empurraram a inflação de 12 meses para 4,58% em setembro.

Três movimentos que podem mudar o jogo em 2027

O manifesto propõe um pacote coordenado. Cada ponto tem impacto direto na alocação de capital e no custo de financiamento:

  • Tributação mínima de 10% para rendas acima de R$ 600 mil/ano: antecipar a Lei 15.270/2025 para valer já em janeiro de 2027, alcançando dividendos, JCP e aplicações hoje isentas.
  • Meta de inflação a 4,5%: retomar o centro vigente entre 2005 e 2018, alongar horizonte de convergência e dar peso efetivo ao pleno emprego — objetivo legal do BC muitas vezes ignorado.
  • Nova regra fiscal: excluir dos limites investimento público, Bolsa Família, pisos de saúde/educação, aportes em estatais e BNDES. O teto atual (70% do crescimento da receita) torna impossível honrar pisos constitucionais.

O custo político de repetir 2015

O texto faz um paralelo direto com o ajuste fiscal de 2015: recessão, queda de popularidade e impeachment. O alerta é pragmático — não ideológico. Com 121 deputados do PL e 49 senadores de oposição a partir de fevereiro, o manifesto argumenta que “repetir a receita pode enfraquecer o apoio obtido nas ruas e tornar o governo vulnerável a novo golpe parlamentar”.

Críticas diretas ao Ministério da Fazenda aparecem no documento: “O programa derrotado volta pela porta da Fazenda”. A referência é à combinação de aperto orçamentário com alta da Selic de 10,5% para 15% entre 2024 e 2025, período em que a avaliação positiva do governo caiu de 36% para 24%.

O que observar nas próximas semanas

A tramitação de uma lei complementar para nova regra fiscal ainda em 2026 é o termômetro imediato. Se aprovada, muda a dinâmica de gastos para 2027 em diante. Paralelamente, a antecipação da taxação de altas rendas depende de articulação no Congresso antes de 31 de dezembro — prazo para valer em janeiro.

Para quem gere carteiras ou planeja investimentos, dois sinais merecem atenção: a reação do BC à pressão por manutenção da Selic e a disposição do CMN (onde o governo tem maioria) em rever a meta de inflação. A combinação define o custo de capital real nos próximos 18 meses.