O Brasil montou um Estado que tenta atender a todos — da elite ao eleitor mais pobre — e a conta chegou. O resultado é uma economia estagnada há mais de uma década e um pacto democrático cada vez mais frágil.
Como um país que crescia 4% ao ano em 2012 entrou em rota de colisão institucional? A resposta está na arquitetura fiscal desenhada após 1985.
O acordo invisível que moldou o Orçamento
A transição democrática não zerou os privilégios da elite econômica. Subsídios, cargos em estatais e proteção comercial migraram intactos para a nova Constituição. Em paralelo, o eleitor mediano — majoritariamente pobre — passou a cobrar políticas sociais que o regime militar não oferecia.
O Estado respondeu expandindo transferências, saúde e educação. Os indicadores melhoraram, mas a qualidade de muitos programas permaneceu baixa e benefícios acabaram capturados pela classe média. Criou-se um provedor universal financiado primeiro pela inflação, depois por carga tributária recorde e endividamento crescente.
Por que funcionou por um tempo — e parou de funcionar
Enquanto a China comprava commodities a preços recordes e o custo da dívida era baixo, o modelo sustentou a democracia. Todos se sentiam atendidos. O choque veio quando o crescimento médio caiu para perto de zero e o ônus fiscal explodiu.
Os números mostram o estrangulamento:
- Carga tributária: saltou de cerca de 25% do PIB nos anos 90 para acima de 33% na última década.
- Investimento público: encolheu para menos de 2% do PIB, nível insuficiente para repor depreciação.
- Juros reais: entre os mais altos do mundo, drenando recursos do setor produtivo.
- Pobreza extrema: ainda atinge quase 10 milhões de brasileiros, apesar da multiplicação de verbas sociais.
O Estado deixou de conseguir atender a todas as demandas simultâneas. Quem não sobe na vida sente que paga mais do que recebe. O ressentimento alimenta a polarização.
A aposta que não se cumpriu: capital humano
Havia uma saída lógica. Se o gasto social tivesse formado uma nova classe média instruída, segura e produtiva, a dependência de assistência cairia. Essa nova maioria pressionaria por abertura econômica e fim de subsídios à elite. A produtividade subiria e a desigualdade continuaria caindo.
O oposto ocorreu. O gasto em educação disparou sem ganho de qualidade no ensino. Privilégios e subsídios às empresas cresceram. Um eleitorado dependente de transferências tornou-se conveniente para quem financia campanhas em troca de benesses regulatórias.
Fatores novos que agravaram a fratura
Três choques recentes aceleraram a deterioração. A polarização importada e amplificada por redes sociais transformou divergências em guerra cultural. O crime organizado expandiu-se, corroendo a autoridade do Estado em territórios inteiros. A pandemia adicionou custos fiscais e traumas sociais ainda não contabilizados.
O ponto mais sensível: redes de influência contaminaram o principal guardião da estabilidade institucional. O Supremo Tribunal Federal passou a operar sob lógica de proteção de grupos e atuação partidária, segundo a análise. Sem árbitro isento, a resolução de conflitos distribuiivos fica comprometida.
O que observar daqui para frente
Não há saída simples para “salvar a democracia” sem enfrentar a equação fiscal. Três variáveis decidirão o cenário dos próximos anos: a capacidade de elevar a qualidade do gasto social sem ampliar a carga tributária, a disposição política para cortar subsídios regressivos e a reconstrução de uma agenda de produtividade que una setor privado e Estado. Quem acompanha o ambiente de negócios deve monitorar sinais de consenso em torno de uma reforma do Estado — não apenas tributária — capaz de reativar o investimento em infraestrutura e educação de base. Sem isso, o ciclo de baixo crescimento e tensão institucional tende a persistir.
