Economia

O segredo do salto de 6,5% nos supermercados: o fim das bets…

Carrinho de compras cheio em supermercado simbolizando crescimento de 6,5% nas vendas após bloqueio de apostas online
O fim das bets online impulsionou as vendas dos supermercados em 6,5% na primeira semana de outubro.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) detectou um crescimento de 6,5% nas vendas do varejo alimentar na primeira semana de outubro, seguido de 6,3% na segunda — ambos na comparação com 2023. O vice-presidente da entidade, Marcio Milan, afirma que não houve injeção extra de renda nem choque de preços capaz de explicar o fenômeno: a única variável nova foi o bloqueio das apostas online.

Por que a entidade aposta nessa tese

O argumento da Abras repousa em três pilares. Primeiro, a alta foi uniforme: atingiu todas as regiões do país e todos os formatos — supermercados tradicionais, hipermercados, lojas de vizinhança e atacarejos. Segundo, o calendário exclui outros gatilhos: o reajuste do Bolsa Família e a antecipação do benefício só entraram em 19 de outubro, depois do período analisado. Terceiro, o PIS/Pasep também ficou fora da janela.

“Comparamos com anos anteriores e buscamos entender qual a influência desse ano que não ocorreu em anos anteriores. O que teve de anormal foi o fim das bets”, resume Milan.

A cronologia do bloqueio

  • 25 de setembro: MP assinada pelo presidente Lula torna ilegais as apostas online.
  • Imediato: depósitos e novos anúncios proibidos.
  • Até 5 de outubro (23h59): sites no ar para resgate de saldos e cumprimento de contratos de publicidade.
  • 6 de outubro: força-tarefa governamental inicia derrubada das plataformas.

As duas semanas monitoradas pela Abras (5 a 11 e 12 a 18 de outubro) capturam, portanto, o primeiro ciclo completo sem bets operando.

Mapa regional: onde o efeito foi mais forte

O avanço não foi homogêneo. Na primeira semana, Sul e o bloco Minas Gerais/Espírito Santo/interior do Rio lideraram com 10,6%. Na segunda, o Sul manteve a ponta (9%), seguido pelo mesmo bloco (7,1%) e pela Grande Rio (6%). A Grande São Paulo, maior mercado do país, ficou nas últimas posições nas duas leituras — 1,2% e 5,5%, respectivamente.

Região 5 a 11/out 12 a 18/out
Sul 10,6% 9,0%
MG/ES/interior RJ 10,6% 7,1%
Nordeste 6,5% 4,5%
Interior SP 5,6% 5,6%
Grande Rio 4,0% 6,0%
Centro-Oeste 3,6% 3,5%
Grande SP 1,2% 5,5%

O que entrou no carrinho

O crescimento concentrou-se na cesta de essenciais: arroz, óleo de soja, macarrão e café. Em setembro, o arroz subiu 4,56% e o óleo, 1,83%; o café recuou 1,09% e o macarrão avançou 0,18%. No acumulado do ano, porém, óleo (-8,59%), macarrão (-0,20%) e café (-16,19%) estão mais baratos — só o arroz acumula alta (4,96%). Os dados são deflacionados pelo IPCA, ou seja, já descontam a inflação.

O cenário anterior e o que vem por aí

Setembro havia mostrado arrefecimento: queda de 1,46% ante agosto, após altas de 3,01% (julho) e 2,21% (agosto). No ano, o avanço acumulado até setembro é de 2,70%.

Mas o efeito mais relevante aparece no próximo mês. A entrada do Bolsa Família reajustado e a antecipação do calendário, ambas a partir de 19 de outubro, injetam nova liquidez nas famílias justamente quando o dinheiro das bets já parou de vazar. Some-se a isso a sazonalidade de fim de ano e a possível liberação do PIS/Pasep.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis decidirão se o impulso se sustenta: (1) a manutenção do bloqueio efetivo das plataformas de apostas; (2) a velocidade de transmissão dos benefícios sociais para o consumo alimentar; (3) a trajetória de preços da cesta básica, sobretudo arroz e café. Se o dinheiro que antes ia para as bets continuar no orçamento doméstico, o varejo alimentar pode fechar 2024 com crescimento acima das projeções iniciais.