Economia

Leilão da Aneel: R$ 8,9 bi e deságio de 57%… veja quem levou

Leilão de transmissão Aneel 2026: R$ 8,9 bi em investimentos e 1.866 km de linhas
Leilão da Aneel arremata 8 lotes de transmissão com deságio de 57% e prevê 20,3 mil empregos.

O último leilão de transmissão de 2026 injetou R$ 8,9 bilhões na economia com deságios que beiram 57%. Mas a disputa acirrada em viva-voz esconde um recado estratégico para quem acompanha o setor elétrico.

A Aneel arrematou os oito lotes ofertados na B3 nesta sexta-feira (30). O certame prevê 1.866 quilômetros de novas linhas e 20,3 mil empregos diretos e indiretos, com concessões de 30 anos e prazos de obra entre 42 e 60 meses.

O mapa dos vencedores: concentração e surpresas

Poucos grupos dividiram o bolo. A Neoenergia e a Celeo Redes levaram dois lotes cada; Cymi Construções ficou com outros dois. EDP e Cox Brasil completam a lista com um lote cada. A pulverização esperada não aconteceu.

  • Neoenergia: Lotes 1 (Bahia) e 7 (Paraíba)
  • Celeo Redes: Lotes 4 (PR/MS/GO) e 8 (Rondônia)
  • Cymi: Lotes 3 (São Paulo) e 5 (Paraná)
  • EDP: Lote 2 (GO/BA)
  • Cox Brasil: Lote 6 (Paraná)

O “superlote” e a batalha dos 150 lances

O Lote 4 foi o protagonista. Maior empreendimento do dia, corta Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás com 1.167 km de linhas e R$ 4,1 bi em investimentos. A Celeo pagou R$ 377 milhões de Receita Anual Permitida (RAP), deságio de 50,55% sobre o teto. Sete concorrentes tentaram, mas o grupo espanhol prevaleceu.

Se o Lote 4 impressionou pelo volume, o Lote 1 chocou pela intensidade. Após propostas em envelope, Neoenergia e Tradetek travaram um duelo de 150 rodadas em viva-voz. A Neoenergia venceu com R$ 59,85 milhões de RAP e deságio de 51,21%. Esse nível de agressividade sugere apetite por ativos no Nordeste além do óbvio.

Impacto regional: onde o dinheiro vai cair

Os números revelam a aposta do governo em corredores específicos. Veja a concentração de recursos por eixo geográfico:

  • Eixo Paraná/MS/GO (Lote 4): R$ 4,1 bi | 8.225 vagas | Escoamento de geração e atendimento ao MS.
  • Nordeste (Lotes 1 e 7): R$ 1,16 bi | 3.132 vagas | Reforço no sul da Bahia e sertão paraibano.
  • Região Metropolitana de SP (Lote 3): R$ 1,07 bi | 2.676 vagas | Apenas 45 km, mas alta densidade de carga.
  • Paraná Oeste/Sudoeste (Lotes 5 e 6): R$ 1,46 bi | 3.336 vagas | Benefício direto a Curitiba e região de Itaipu.
  • Norte (Lote 8): R$ 753 mi | 2.151 vagas | Estabilidade para Acre e Rondônia via Subestação Porto Velho.
  • Conexão BA/GO (Lote 2): R$ 317 mi | 792 vagas | Ampliação no nordeste goiano.

O recado dos deságios médios

A média geral de desconto ficou elevada, puxada pelo Lote 3 (SP), que bateu 57,08% — o teto do certame. Em tese, isso reduz a tarifa de transmissão para o consumidor final. Na prática, sinaliza que os players aceitam margens mais apertadas para garantir fluxo de caixa longo e previsível em ambiente de juros altos.

O Ministério de Minas e Energia contabiliza R$ 69,6 bilhões mobilizados em leilões de transmissão entre 2023 e 2026 (R$ 77,5 bi corrigidos pelo IPCA). O ritmo não deve cair.

O que observar daqui para frente

Contratos assinados, começa a corrida contra o relógio: licenciamento ambiental, aquisição de faixas de terra e supply chain de torres e cabos. Atrasos nesses elos são o maior risco para o cronograma de 42 a 60 meses.

Para investidores, o termômetro agora são os leilões de 2025. A Aneel já sinalizou novos certames para o primeiro semestre. Se a disputa em viva-voz se repetir, a tese de “retorno regulado como porto seguro” ganha força — mas a compressão de RAP exige eficiência operacional cirúrgica. Quem tem balanço para financiar capex pesado com capital próprio sai na frente.