Economia

Brasil vira “tábua de salvação” do vinho mundial: imposto cai 20% e Chile mira mercado

Brasil como prioridade estratégica do vinho mundial: taças, garrafas chilenas e gráfico de crescimento de consumo
Brasil vira "tábua de salvação" do vinho global com queda de 20% no imposto e Chile mirando o mercado

O Brasil deixou de ser promessa para virar prioridade estratégica de gigantes como o Chile, mas o “boom” depende de um detalhe que o bolso do consumidor conhece bem: a economia. Em entrevista ao videocast Vamos de Vinho, o CEO da Mistral, Otavio Lilla, desenha um cenário onde potencial histórico esbarra na volatilidade cambial imediata.

O consumo interno cresceu de forma consistente nas últimas duas décadas, impulsionado pela inserção do vinho na cultura gastronômica — especialmente em polos como São Paulo. Porém, Lilla alerta: no curto prazo, o mercado importado dança conforme o dólar. No longo, a trajetória é inequivocamente de alta.

O fim do “esnobismo” e o efeito pandemia

Em 25 anos, o perfil do bebedor mudou radicalmente. O vinho saiu das taças exclusivas da elite para compor a rotina de bares e restaurantes. A pandemia acelerou esse movimento: quem nunca bebia em casa passou a consumir, revelando um “potencial saudável” de demanda reprimida, segundo o executivo.

Esse enraizamento cultural diferencia o Brasil da China. Por lá, o vinho nunca virou hábito diário; era moeda de troca e presente corporativo. Com a repressão governamental a práticas de corrupção e a queda do poder aquisitivo, o mercado chinês regrediu cerca de 30 anos em volume, forçando produtores globais a buscar novos destinos.

Por que o Chile olha para o Brasil como “salvação”

Com Estados Unidos instáveis e China em retração, o Brasil surge como o único grande mercado com espaço real para crescer. Lilla define a posição chilena de forma direta: o país virou a “tábua de salvação” para escoar excedentes.

  • Chile e Argentina: já têm tarifa zero de importação (Mercosul).
  • União Europeia: paga 27% de imposto, mas acordo prevê queda gradual a 0% em 10 anos.
  • Redução atual: alíquota caiu para 24% em maio de 2026.

O cálculo do preço final: queda de 20% nos vinhos europeus?

A redução tarifária não é linear no bolso do consumidor, mas a projeção da Mistral é otimista. A estimativa interna aponta para uma queda final de aproximadamente 20% no preço dos vinhos europeus ao final do período de transição.

Eschoque de oferta barata vinda do Chile e da Europa simultaneamente pode redefinir a prateleira do supermercado e a carta do restaurante. O gargalo, reforça Lilla, segue sendo a renda disponível do brasileiro.

O que observar nos próximos trimestres

Três variáveis ditam o ritmo: a taxa de câmbio (impacto direto no custo de reposição), a velocidade da desoneração europeia e a recuperação da renda real. Se a economia colaborar, a “bola da vez” vira jogo ganho para importadores e consumidores. Se o dólar disparar, o potencial cultural continuará esperando o bolso acompanhar.