O Brasil deixou de ser promessa para virar prioridade estratégica de gigantes como o Chile, mas o “boom” depende de um detalhe que o bolso do consumidor conhece bem: a economia. Em entrevista ao videocast Vamos de Vinho, o CEO da Mistral, Otavio Lilla, desenha um cenário onde potencial histórico esbarra na volatilidade cambial imediata.
O consumo interno cresceu de forma consistente nas últimas duas décadas, impulsionado pela inserção do vinho na cultura gastronômica — especialmente em polos como São Paulo. Porém, Lilla alerta: no curto prazo, o mercado importado dança conforme o dólar. No longo, a trajetória é inequivocamente de alta.
O fim do “esnobismo” e o efeito pandemia
Em 25 anos, o perfil do bebedor mudou radicalmente. O vinho saiu das taças exclusivas da elite para compor a rotina de bares e restaurantes. A pandemia acelerou esse movimento: quem nunca bebia em casa passou a consumir, revelando um “potencial saudável” de demanda reprimida, segundo o executivo.
Esse enraizamento cultural diferencia o Brasil da China. Por lá, o vinho nunca virou hábito diário; era moeda de troca e presente corporativo. Com a repressão governamental a práticas de corrupção e a queda do poder aquisitivo, o mercado chinês regrediu cerca de 30 anos em volume, forçando produtores globais a buscar novos destinos.
Por que o Chile olha para o Brasil como “salvação”
Com Estados Unidos instáveis e China em retração, o Brasil surge como o único grande mercado com espaço real para crescer. Lilla define a posição chilena de forma direta: o país virou a “tábua de salvação” para escoar excedentes.
- Chile e Argentina: já têm tarifa zero de importação (Mercosul).
- União Europeia: paga 27% de imposto, mas acordo prevê queda gradual a 0% em 10 anos.
- Redução atual: alíquota caiu para 24% em maio de 2026.
O cálculo do preço final: queda de 20% nos vinhos europeus?
A redução tarifária não é linear no bolso do consumidor, mas a projeção da Mistral é otimista. A estimativa interna aponta para uma queda final de aproximadamente 20% no preço dos vinhos europeus ao final do período de transição.
Eschoque de oferta barata vinda do Chile e da Europa simultaneamente pode redefinir a prateleira do supermercado e a carta do restaurante. O gargalo, reforça Lilla, segue sendo a renda disponível do brasileiro.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis ditam o ritmo: a taxa de câmbio (impacto direto no custo de reposição), a velocidade da desoneração europeia e a recuperação da renda real. Se a economia colaborar, a “bola da vez” vira jogo ganho para importadores e consumidores. Se o dólar disparar, o potencial cultural continuará esperando o bolso acompanhar.
