A economia da zona do euro cresceu 0,4% no terceiro trimestre, superando a previsão de 0,2% dos analistas, mas perdeu fôlego frente aos 0,6% do período anterior. O dado, divulgado pelo Eurostat, esconde uma divergência perigosa entre as maiores potências do bloco.
Enquanto a Alemanha evitou a recessão técnica com alta de 0,2%, a França contraiu 0,1%. Para o empresário que olha para o mercado europeu, a pergunta central é: até quando o motor alemão consegue puxar o vagão francês?
O número principal e a surpresa positiva
A leitura preliminar do PIB mostrou resiliência. O consenso de mercado apostava em estagnação próxima de zero, reflexo do aperto monetário do BCE e da demanda global fraca. O resultado de 0,4% sugere que o consumo das famílias e os investimentos públicos ainda sustentam a atividade, ainda que em marcha lenta.
Na comparação anual, o bloco avanou 1,3%. É um ritmo modesto, mas que afasta, por ora, o fantasma de uma recessão prolongada. O conjunto da União Europeia (27 países) cresceu 0,5% no trimestre e 1,5% no ano.
França freia e Alemanha respira: o racha no bloco
O diabo mora nos detalhes nacionais. A economia francesa entrou em território negativo (-0,1%), o primeiro recuo trimestral em mais de um ano. O ministro da Economia, Roland Lescure, admitiu: “A economia francesa está paralisada”. A fraqueza vem da indústria e do setor externo, sensíveis à demanda chinesa e às taxas de juros altas.
Do outro lado do Reno, a Alemanha entregou 0,2%. Parece pouco, mas superou as expectativas de contração. O alívio veio do setor de serviços e de uma leve melhora na construção. Ainda assim, a maior economia europeia cresce abaixo da média do bloco pelo segundo trimestre seguido.
O cenário atual desenha um mapa assimétrico:
- Espanha: +0,6% (motor do crescimento sul-europeu).
- Alemanha: +0,2% (estabilização frágil).
- Itália: 0,0% (estagnação técnica).
- França: -0,1% (contração confirmada).
Irlanda distorce? O efeito das multinacionais
O crescimento de 5,5% da Irlanda chama a atenção, mas exige cautela. O número é inflado pela contabilidade de grandes multinacionais (farmacêuticas e tech) que registram propriedade intelectual no país. Sem o efeito irlandês, o crescimento da zona do euro seria ainda mais contido, próximo de 0,3%.
Esse viés estatístico mascara a fragilidade real das economias domésticas. Para quem toma decisão de alocação de capital, o PIB “limpo” de distorções fiscais é o termômetro mais confiável.
Itália estagna e o acumulado do ano trava
A terceira economia do bloco não saiu do lugar. O Istat confirmou variação nula (0,0%) no trimestre, mantendo o crescimento acumulado do ano em 0,8%. A demanda interna fraca e a incerteza fiscal doméstica explicam a paralisia. Diferente da França, a Itália não tem um setor externo forte para compensar.
Mas o efeito mais relevante aparece nas projeções para o quarto trimestre. Os indicadores antecedentes (PMIs) de outubro já sinalizam contração na indústria e estagnação nos serviços para o bloco como um todo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos meses: a velocidade dos cortes de juros do BCE, a execução do fundo de recuperação europeu (NextGenerationEU) e a demanda por exportações na China e EUA. Se a França não reagir no quarto trimestre, o risco de revisão para baixo no crescimento de 2025 se torna concreto. O investidor deve monitorar a confiança do consumidor alemão em novembro — é o termômetro antecipado de uma virada de ciclo ou de uma estagnação prolongada.
