Economia

Fábrica da Land Rover parada: Chery espera posse para garantir incentivo de R$ 629 mi

Fábrica da Jaguar Land Rover fechada em Itatiaia RJ com portões trancados
Unidade da JLR em Itatiaia paralisada há quatro meses aguarda definição sobre venda para a Chery

A fábrica da Jaguar Land Rover (JLR) em Itatiaia (RJ) completa quatro meses de portas fechadas sem data para reabrir. A chinesa Chery, dona das marcas Omoda e Jaecoo, mantém o interesse em assumir o ativo, mas a transferência esbarra em um entrave bilionário: a manutenção dos incentivos fiscais concedidos à montadora britânica.

Enquanto as linhas de montagem do Discovery Sport e do Range Rover Evoque seguem paradas desde julho, cerca de 380 funcionários continuam na folha de pagamento. Eles participam de treinamentos e pós-graduações custeados pela JLR, mas o sindicato admite: a incerteza sobre o futuro é total.

O que a Chery quer e por que Itatiaia é estratégico

O grupo chinês assinou carta de intenções ainda no primeiro semestre para operar a planta via Omoda & Jaecoo. A aquisição resolveria a necessidade de uma base industrial própria, independente da joint venture Caoa Chery em Jacareí (SP), desativada desde 2022.

Itatiaia oferece infraestrutura pronta, mão de obra qualificada e localização no polo automotivo do Sul Fluminense. Porém, o projeto da Chery prevê um salto de complexidade: sair do sistema SKD (montagem final de kits semiacabados) para o CKD (montagem a partir de componentes desacoplados), o que exige novos investimentos e readequação da planta.

O nó tributário: R$ 629 milhões e a lei do RioInvest

A viabilidade financeira depende da transferência do pacote de benefícios originais. O governo fluminense confirmou ao UOL Carros que o sucessor pode usufruir dos incentivos, desde que cumpra as contrapartidas contratuais. O pacote inclui:

  • RioInvest / Fundes: Linha de financiamento de R$ 629 milhões com diferimento de ICMS;
  • Municipal: Isenções de IPTU, ITBI e ISS concedidos pela Prefeitura de Itatiaia.

Sem a garantia jurídica desses benefícios, a conta do CKD não fecha. Representantes da Chery já se reuniram virtualmente com a prefeitura para discutir a adesão às políticas locais.

Eleição estadual trava o “bater do martelo”

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Itatiaia e Porto Real (Sindireal) e uma fonte do governo estadual, a definição só deve avançar após a posse do governador eleito Douglas Ruas, em janeiro de 2027. Atualmente, o estado é comandado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto.

“Falta um governo com força política para definir os incentivos e as contrapartidas da chinesa”, resume a fonte ouvida pela reportagem. A equipe de Ruas sinaliza que a preservação de empregos e o fortalecimento da cadeia produtiva são prioridades, com política de incentivos baseada em competitividade e responsabilidade fiscal.

O peso do polo automotivo sul-fluminense

A paralisação não afeta apenas a JLR. A região concentra um ecossistema que gerou 9.965 postos formais em 2025, segundo dados do Cluster Automotivo. Grande parte do dinamismo recente veio da Stellantis em Porto Real, com a produção do Jeep Avenger.

A ociosidade de uma planta com capacidade para 24 mil unidades/ano (nunca totalmente utilizada) representa capacidade ociosa e risco para fornecedores locais que dependem do volume agregado.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis ditarão o desfecho: a velocidade da transição de governo no Rio, a disposição da Chery em assumir as contrapartidas do CKD (mais onerosas que o SKD) e a negociação trabalhista para converter a força de trabalho atual no novo modelo produtivo. A JLR, por sua vez, mantém silêncio sobre o ativo. O próximo capítulo depende, essencialmente, de quem assinará o decreto de transferência dos incentivos a partir de janeiro.