Tecnologia

A internet virou shopping de robôs e cassinos: o segredo que ninguém conta…

Capa do livro "A Internet Não Precisa Ser Assim" sobre mesa, autores Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares ao fundo
Livro revela como cinco forças transformaram a web em máquina de extração de atenção

Dois jornalistas que cresceram com a web utópica dos anos 90 acabam de publicar um diagnóstico brutal: a rede virou um grande shopping center tomado por robôs e mecanismos de cassino. O livro “A Internet Não Precisa Ser Assim” (Diálogos Editora, 155 págs., R$ 65) mapeia como cinco forças invisíveis transformaram a promessa democrática em máquina de extração de atenção.

Fernanda Campagnucci, diretora-executiva do InternetLab, e Marcelo Soares, fundador da Lagom Data, não escrevem por nostalgia. Eles entregam uma caixa de ferramentas conceituais para quem precisa navegar — e decidir — nesse ambiente hostil.

Os cinco vilões que ninguém viu chegar

O diagnóstico organiza a deterioração em cinco eixos que se alimentam mutuamente. Não são problemas isolados: formam uma arquitetura sistêmica.

  • Plataformas que muraram a internet: jardins fechados substituíram a rede aberta.
  • Bilionários com interesses escusos: decisões de poucos ditam a experiência de bilhões.
  • Marketing de vigilância: dados pessoais viraram moeda de troca padrão.
  • Mecanismos de cassino: design viciante para reter atenção a qualquer custo.
  • Enxurrada de robôs: IA generativa inunda a rede com conteúdo sintético.

O choque não está em cada item separadamente. Está na combinação.

Merdificação: o conceito que explica seu feed

O escritor canadense Cory Doctorow cunhou o termo que resume a estratégia das big techs. Primeiro, criam dependência com serviço gratuito e funcional. Depois, pioram a experiência para agradar anunciantes e parceiros comerciais. No estágio final, traem os próprios parceiros em nome da margem de lucro.

Você já viveu isso. O algoritmo que antes mostrava amigos agora empurra anúncios disfarçados de conteúdo. A busca que respondia direto agora enterra a resposta sob links patrocinados. Não é acidente. É modelo de negócio.

Do capitalismo de vigilância ao cassino algorítmico

Shoshana Zuboff batizou a fase anterior: capitalismo de vigilância. Extrair dados para prever comportamento. Só que prever humano é difícil. A solução das plataformas foi mais agressiva: não prever, moldar.

Entram em cena os mecanismos de cassino. O “jogo do tigrinho” é só a ponta visível. A estrutura profunda é a gamificação tóxica — conceito do designer Adrian Hon. Narrativas, pontuações, recompensas variáveis, punições por abandono. Tudo calibrado para disparar dopamina e inibir vontade própria.

Sistemas que exigem login diário sob pena de perder progresso. Notificações que criam urgência falsa. Streaks que viram obrigação. O usuário não joga mais; é jogado.

Robôs escrevendo para robôs lerem

A IA generativa adicionou uma camada nova de ruído. Não são apenas bots de spam antigos. São modelos que produzem texto, imagem e código em escala industrial — muitas vezes otimizados para enganar outros algoritmos, não para informar pessoas.

Resultado: uma web onde a razão sinal-ruído despencou. Encontrar informação confiável exige cada vez mais energia cognitiva. E tempo. Justamente os dois recursos que o modelo de cassino quer consumir.

Como preservar o uso sem virar refém

O livro não para no diagnóstico. Oferece contramedidas práticas, da mais simples à mais radical:

  • Limites de tela reais: temporizadores nativos do sistema operacional, não apps de terceiros.
  • Alternativas fora do oligopólio: Mastodon, Signal, navegadores com bloqueio nativo de rastreadores.
  • Curadoria ativa: RSS, newsletters de confiança, favoritos manuais — fuja do feed algorítmico.
  • Higiene de atenção: desative notificações não essenciais; use modo monocromático no celular.

Nenhuma medida sozinha resolve. A eficácia está na combinação consistente.

O que observar daqui para frente

Três frentes vão ditar se a internet melhora ou piora nos próximos 18 meses. Primeira: regulação de design viciante — a União Europeia já avança com o Digital Services Act; o Brasil discute PLs semelhantes. Segunda: adoção de protocolos descentralizados (ActivityPub, AT Protocol) que permitem portabilidade real de identidade e grafo social. Terceira: pressão de anunciantes por brand safety genuíno, que pode forçar plataformas a conter a enxurrada sintética.

Quem toma decisão de tecnologia — seja em empresa, investimento ou carreira — ganha vantagem monitorando esses vetores. A internet não precisa ser assim. Mas só muda quem entende como ela funciona hoje.