Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) optaram por não reagir à fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e à sua autoproclamação como “presidente eleito”. A estratégia tem um alvo preciso: pavimentar a reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao comando do Senado em fevereiro de 2027.
A decisão contraria o perfil histórico de Alexandre de Moraes, conhecido pelo rigor em investigações contra atos antidemocráticos. Desta vez, porém, o cálculo político falou mais alto: prender o senador agora poderia transformá-lo em mártir e unir a oposição contra o candidato preferido do Planalto para a Casa Alta.
A aposta no silêncio calculado
Integrantes da Corte ouvidos reservadamente afirmam que o momento exige “dosimetria”. O grupo majoritário, do qual Moraes faz parte, entende que Flávio Bolsonaro está isolado — até aliados tentam se distanciar. Deixá-lo “sangrar” sozinho, sem a vitimização de uma prisão preventiva, seria mais eficiente para enfraquecer a extrema-direita no Parlamento.
As investigações criminais, como o caso Dark Horse e a suspeita de lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz, seguem o rito normal. A diferença está no tratamento institucional: zero holofotes, zero medidas cautelares espetaculosas.
A fuga e a ordem não cumprida
O roteiro da fuga expõe a mudança de tom. No domingo (25), horas após a derrota na eleição presidencial, Moraes determinou a apreensão dos passaportes do senador pelo risco de fuga. Dois dias depois, Flávio já estava fora do país, supostamente com coordenação de autoridades americanas e argentinas.
A Polícia Federal pediu buscas em endereços ligados a ele. A PGR concordou. A equipe da PF ficou mobilizada aguardando a assinatura do ministro. A autorização não veio. Para colegas de tribunal, foi o sinal claro de que a “era do xerife” deu lugar a uma nova fase de contenção.
A ponte com Alcolumbre e a anistia
Davi Alcolumbre articula apoio da direita bolsonarista para permanecer no comando do Senado. O preço cotado nos bastidores envolve a disposição de pautar anistia ou indulto para Jair Bolsonaro. O STF monitora cada movimento.
Um ministro resume a equação: confrontar Flávio agora endureceria a bancada de oposição, dificultando a vida de Alcolumbre. O silêncio, por outro lado, mantém o canal de diálogo aberto com o presidente do Senado — ator crucial para sabatinas de indicados ao próprio Supremo e para a pauta legislativa de 2025 a 2027.
A bomba da Dosimetria no plenário
Paralelamente, pesa no tribunal a Lei da Dosimetria, aprovada pelo Congresso para reduzir penas dos condenados pelo 8 de Janeiro. A norma está suspensa por decisão monocrática de Moraes desde 9 de maio. A PGR já se manifestou contra a suspensão.
Há pressão interna para levar o mérito ao plenário ainda em 2026. O objetivo é evitar que o tema estoure em 2027, ano de maior exposição do STF com a eleição no Senado. Julgar agora tira a pauta do colo de Alcolumbre no momento mais sensível de sua campanha interna.
O que observar daqui para frente
- Prazo do plenário: se a Dosimetria for julgada este ano, retira-se um trunfo de negociação da oposição para 2027.
- Movimentos de Flávio: qualquer ato do senador nos EUA será monitorado; a prisão continua no radar, mas o gatilho mudou de “risco de fuga” para “ameaça concreta à ordem”.
- Votação no Senado: a composição da Mesa Diretora em fevereiro dirá se a aposta do STF em Alcolumbre se pagou — ou se o tribunal criou um aliado que não controla.
O xadrez mudou. O Supremo trocou a exposição midiática pela articulação de bastidor. O próximo lance não será dado em despacho judicial, mas na contagem de votos para a cadeira mais poderosa do Congresso.
