Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, prestou depoimento à Polícia Federal e afirmou não ter responsabilidade pela maior crise da história do Banco de Brasília. O banqueiro sustenta que o rombo bilionário foi desencadeado pela própria investigação e pela liquidação de sua instituição. A versão contraria frontalmente o inquérito que o indiciou junto a outros 14 investigados.
A defesa do “bom fé” e a troca de ativos
No depoimento de 15 de outubro, tornado público no final de novembro, Vorcaro detalhou a operação das carteiras da consultoria Tirreno. Foram R$ 11,5 bilhões repassados ao BRB, valores que a PF classifica como sem lastro — ou seja, fraudulentos.
O ex-banqueiro admite o problema na carteira original, mas alega ter substituído os ativos por recursos próprios do Master. “Peguei ativos próprios meus e substituí, em boa fé com o BRB. E hoje tem mais ativos do que ele pagou, lá. Essa é a realidade”, declarou à delegada Janaina Palazzo.
O contra-ataque: a culpa é da “crise de credibilidade”
A tese central da defesa desloca a origem do prejuízo. Para Vorcaro, os ativos existem e cobrem a dívida. O colapso de liquidez do BRB — com saques de R$ 9 bilhões logo após a liquidação do Master e sua prisão — seria consequência do abalo de confiança, não da qualidade dos papéis.
“O banco vive de credibilidade. A crise do BRB não causada por mim, não, foi causada pela situação que ocorreu. De liquidação do Master, que era parceiro”, argumentou. Ele já havia responsabilizado o Banco Central pelo colapso em acareação anterior com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Os números que a investigação contesta
Enquanto a defesa fala em lastro recomposto, os dados do inquérito e do próprio BRB desenham cenário distinto. A operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, mapeou um volume de R$ 30 bilhões em negócios entre os dois bancos no biênio 2024-2025.
- R$ 8,8 bilhões: estimativa do BRB em créditos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação (“crédito podre”).
- R$ 2,2 bilhões: valor que o governo afirma conseguir recuperar via outras medidas.
- R$ 6,6 bilhões: gap restante que exigiria aporte ou empréstimo para cobrir o patrimônio.
O xadrez judicial e o futuro do banco público
A PF indiciou 15 pessoas no dia 28 de novembro, incluindo Vorcaro e Paulo Henrique Costa — este preso em abril de 2026 por supostamente permitir negócios sem governança adequada. O relatório segue agora para o ministro André Mendonça (STF) e, depois, ao Ministério Público Federal, que decide pela denúncia à Justiça.
Mas o efeito prático já bate à porta do contribuinte. A necessidade de um empréstimo para cobrir R$ 6,6 bilhões transforma um caso de polícia em decisão de política fiscal. A capacidade de recuperação dos ativos “substituídos” por Vorcaro será o termômetro para saber se o dinheiro público será acionado.
O que observar daqui para frente
Três movimentos ditam os próximos capítulos: a análise do MPF sobre a denúncia, a validação técnica (ou não) dos ativos de substituição apresentados pela defesa e a negociação política para fechar a tampa do rombo de R$ 6,6 bilhões. Se a “boa fé” de Vorcaro não se sustentar na perícia contábil, a conta chega integralmente ao Tesouro do Distrito Federal.
