O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, confirmou à Polícia Federal que o governador Ibaneis Rocha (MDB) lhe ordenou, em jantar na residência de Daniel Vorcaro, a estruturação da venda do banco público ao Banco Master. O episódio ocorreu em 24 de setembro de 2024 e inverte a lógica de uma negociação que, meses depois, resultaria na compra bilionária de carteiras de crédito do Master pelo próprio BRB.
O jantar que ditou o roteiro
Costa relatou ter sido convocado pelo gabinete do governador para o encontro na casa de Vorcaro, dono do Master. Apesar de estar viajando na Bahia, afirmou que não houve como evitar a reunião. Segundo o depoimento, a fala de Ibaneis foi direta: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”.
O ex-presidente disse ter ficado “surpreso” e contrariado, pois a diretoria sempre defendeu a manutenção do controle público da instituição. A resistência inicial, porém, não impediu que a relação entre os dois bancos se intensificasse nas semanas seguintes.
Da venda à compra: a inversão da operação
O inquérito revela que o roteiro mudou drasticamente. Em vez de vender o BRB, a estratégia passou a ser a aquisição de ativos do Master pela instituição brasiliense. O movimento culminou na aprovação pela Câmara Legislativa do DF, mas foi barrado pelo Banco Central às vésperas da liquidação do Master e do deflagramento da Operação Compliance Zero.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB adquiriu R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Se mantido o ritmo, o volume anualizado superaria R$ 16,7 bilhões, segundo estimativas da própria PF.
Zurique e a centralização das decisões
Mensagens recuperadas nos celulares dos investigados detalham uma reunião em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025. Participaram Vorcaro, Ibaneis, Costa e um quarto interlocutor identificado apenas como “Leonardo”. Três dias antes, Costa já avisava Vorcaro que o governador pedira o agendamento.
A PF aponta que decisões estratégicas eram submetidas a Ibaneis antes de passarem pelos órgãos formais de governança do banco. Para os investigadores, isso configura “captura institucional”: a estrutura decisória alinhada a interesses privados em detrimento da impessoalidade e do interesse público.
O mecanismo dos fundos de investimento
O relatório policial destaca o uso de fundos — Borneo, Verbier e Delta — para viabilizar as aquisições. A estrutura teria servido para ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada, burlando regras de governança e fiscalização do Banco Central.
Principais pontos da atuação atribuída a Ibaneis pela PF:
- Articulação direta com agentes privados;
- Validação de decisões operacionais críticas;
- Definição da estratégia de expansão do BRB;
- Autorização dos montantes de aumento de capital.
As defesas e o jogo da governança
A defesa do governador, chefiada por Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), sustenta que Ibaneis não exerceu pressão nem ingerência nas operações. O argumento central é que o ex-presidente do BRB detinha autonomia negocial e que decisões de tal porte exigiam aprovação do Conselho de Administração — onde o GDF tem assento — e do sistema interno de compliance.
A defesa de Paulo Henrique Costa reforça a tese da autonomia limitada pela governança: “Ainda que Paulo tivesse quisito fazer um negócio ilícito às escondidas com Vorcaro, teria sido parado no Conselho de Administração”.
O que observar daqui para frente
O inquérito principal indiciou Vorcaro, Costa e outras 13 pessoas. O foco agora migra para a esfera judicial e para a resposta do Banco Central sobre a regularidade das aquisições de carteiras já realizadas. Para investidores e gestores de fundos públicos, o caso acende um alerta vermelho sobre a blindagem de conselhos de administração em estatais e a eficácia dos controles internos quando a vontade política se sobrepõe à técnica. O desfecho da Operação Compliance Zero dirá se a “captura” foi contida ou apenas exposta.
