Economia

O segredo que ninguém conta sobre o ajuste fiscal que o Brasil precisa

Gráfico da dívida pública brasileira atingindo 83% do PIB com ícones de ajuste fiscal
A dívida bruta caminha para 83% do PIB enquanto o gasto federal consome quase 20% da riqueza nacional.

O próximo presidente herdará uma conta que não fecha: a dívida bruta caminha para 83% do PIB e o gasto federal consome quase 20% da riqueza nacional. A pergunta que fica é se haverá coragem política para virar esse jogo antes que a crise force um ajuste desordenado.

Os números não mentem. Entre 2021 e 2023, a despesa primária saltou de 17,8% para 19,6% do PIB. Esse descolamento concentra-se nas obrigações compulsórias — aposentadorias, salários, benefícios — que comprimem o espaço para investimentos e políticas públicas essenciais.

O tamanho do buraco que ninguém quer assumir

Estabilizar a dívida nas atuais condições de crescimento e juros exigiria um aperto de aproximadamente 4% do PIB. Para colocar em perspectiva: isso equivale a mais de R$ 400 bilhões anuais em cortes ou receitas extras. Um montante inviável no curto prazo sem reformas estruturais profundas.

Medidas recentes aprovadas no Congresso caminharam na direção oposta. Em vez de atacar a raiz do desequilíbrio, tornaram sua correção ainda mais difícil. O prêmio de risco brasileiro só cairá com um choque de confiança sustentado por mudanças que gerem economia permanente, não remendos contábeis.

Por que o Banco Central não resolve sozinho

A independência da autoridade monetária protege a política de juros, mas não cria espaço fiscal. Juros externos elevados encarecem o financiamento da dívida e reduzem a margem para erros domésticos. Sem reformas do lado da despesa, os juros longos sobem, o custo de rolagem explode e a taxa básica perde espaço para cair.

Política monetária responsável não substitui política fiscal responsável. O adulto na sala não pode ser o diretor de política monetária — precisa ser quem tem a caneta e o voto.

O que um ajuste crível exige na prática

  • Desacelerar permanentemente o crescimento da despesa, não recorrer a contingenciamentos temporários
  • Rever indexações e vinculações que engessam o Orçamento
  • Recalibrar benefícios sociais para focalizar quem realmente precisa
  • Reavaliar subsídios e benefícios tributários que drenam receita
  • Avançar em nova reforma da Previdência, incluindo regras do MEI

A ampliação do acesso ao regime previdenciário sem reduzir a distância entre contribuições e benefícios aumenta a pressão sobre um sistema já tensionado pela regra de reajuste do salário mínimo e pela baixa idade mínima de aposentadoria.

O inimigo invisível: a insegurança jurídica

Há um desafio inseparável da economia que poucos mencionam: a perda de confiança nas instituições. Insegurança jurídica inibe investimentos, eleva custos de transação e compromete a previsibilidade que o capital de longo prazo exige. A reforma do Judiciário — com mais transparência, eficiência e segurança jurídica — é tão urgente quanto a fiscal.

Bons nomes na equipe econômica e discursos de responsabilidade não bastam. O presidente terá de gastar capital político para aprovar reformas impopulares e assumir o custo das escolhas. Liderança não se terceiriza.

O que observar daqui para frente

Nos primeiros cem dias do novo governo, três sinais dirão se o ajuste virá por escolha ou por força da crise: a composição da equipe econômica com poder real de veto, o envio de uma PEC estrutural de contenção de despesas obrigatórias e a disposição de enfrentar corporações organizadas no Congresso. Se a estratégia for “mais do mesmo”, a crise já está contratada — e o custo será pago por quem produz, investe e trabalha no país.