Meio Ambiente

O segredo que transforma “mato” em macarrão e renda no interior de SP

Ivonete Alves segurando prato de macarrão feito com PANCs em quintal produtivo
Ivonete transforma plantas "invasoras" em macarrão nutritivo e renda no interior paulista.

Uma moradora de Presidente Prudente prova que talos, cascas e plantas consideradas invasoras viram pratos sofisticados e nutritivos. Ivonete Aparecida Alves, doutora em Educação e técnica em agropecuária, construiu uma audiência fiel ensinando o aproveitamento integral de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Mas o que começou como necessidade pessoal por conta de alergias a agrotóxicos virou um negócio digital com curso pago e comunidade engajada.

Da restrição alimentar à descoberta do quintal

Há mais de duas décadas Ivonete eliminou a carne do prato. A dificuldade de encontrar vegetais frescos e livres de químicos a empurrou para o quintal de casa. “Reaprender a comer mato foi um caminho possível”, resume. Hoje, ela se define como lactovegetariana — consome ovos e mel de procedência conhecida, além de criar as próprias galinhas.

A formação técnica e o doutorado deram base científica ao que a tradição popular já sabia: partes descartadas da abóbora, da bucha e de ervas espontâneas concentram nutrientes e sabor.

Macarrão de talo de abóbora e bucha refogada: o cardápio surpreende

Duas receitas viraram vitrine do projeto “Comida Boa é Mato!”:

  • Macarrão de talo de abóbora — a parte fibrosa, geralmente jogada fora, vira massa vegana após processo artesanal.
  • Bucha vegetal refogada — o fruto jovem, antes de virar esponja de banho, entra na panela com temperos do quintal.

“A variedade de cores e sabores é enorme. E é comida quase sempre de graça, complementada com o que tem na despensa”, afirma Ivonete.

Curso online, comunidade afro e expansão do modelo

A primeira turma do curso ocorreu em 2025: 12 receitas salgadas, 5 doces e 5 bebidas ensinadas em aulas gravadas. A próxima edição está marcada para 10 de novembro, com inscrição a R$ 50 via formulário nas redes sociais da educadora.

O cultivo acontece no Mocambo Nzinga, coletivo de cultura afro-brasileira no Jardim Cambuci. Lá nascem pau-d’alho, nirá, cebolinha e as PANCs que abastecem a cozinha experimental. Quando a bucha não está no ponto ideal no quintal, Ivonete compra de uma banca especializada na feira da Avenida Manoel Goulart — prova de que a cadeia local já existe.

O que observar daqui para frente

O modelo une três vetores fortes: segurança alimentar, economia circular e educação digital. Se a adesão ao curso mantiver o ritmo, a tendência é que mais produtores locais passem a cultivar PANCs para venda direta, criando microcadeias de valor no interior paulista. Para empreendedores do setor de alimentos, o sinal é claro: o “lixo” da horticultura convencional vira produto premium com storytelling autêntico e margem para escalar.