Justiça

Flávio Bolsonaro foge aos EUA e lança carta golpista: quem ainda apoia o filho do ex-presidente?

Flávio Bolsonaro nos EUA exibindo manifesto golpista com bandeira do Brasil ao fundo
Senador Flávio Bolsonaro divulga carta golpista nos EUA comparando-se a De Gaulle e autodeclarando-se "presidente eleito dos Estados Unidos do Brazil".

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos no final de outubro e, ao desembarcar, divulgou um manifesto comparando-se a Charles de Gaulle e autodeclarando-se “presidente eleito dos Estados Unidos do Brazil” — com “z”. A iniciativa expôs rachaduras na base aliada e levantou dúvidas sobre a viabilidade política do clã nas próximas eleições.

O episódio não é apenas mais um factoide: revela a fragilidade da coordenação da oposição ao governo Lula e sinaliza riscos para investidores que monitoram a estabilidade institucional. A resposta dos principais atores políticos nas 48 horas seguintes define o cenário para 2026.

O que diz o manifesto e por que causou ruído

O documento, publicado em 28 de outubro, mistura referências à resistência francesa contra os nazistas com acusações de “regime de exceção” e “eleição roubada” no Brasil. Flávio Bolsonaro usou passaporte italiano para entrar na Argentina e, dali, seguiu para os EUA sem passar por controle migratório brasileiro.

O brasão utilizado na carta trazia o nome do país grafado como “Brazil”, detalhe explorado por adversários para ridicularizar a iniciativa. Horas depois, o texto foi alterado: a autodeclaração de “presidente eleito” deu lugar a “líder do Brasil”.

Rachadura na base: Tarcísio e Marinho se distanciam

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em 2026, foi o primeiro peso-pesado a marcar posição. No dia da divulgação, afirmou que “a eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente”. Reconheceu o “sentimento de indignação” de Flávio, mas cravou: “o caminho é respeitar o resultado das urnas”.

Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha flaviana, classificou o manifesto como “um desabafo” decorrente do “choque da derrota”. A cúpula do PL evitou endossar a tese de fraude eleitoral. Partidos de centro-direita — União Brasil, PSD e MDB — reiteraram a lisura do pleito.

O que está em jogo para o empresariado e investidores

  • Previsibilidade institucional: tentativas de deslegitimar eleições elevam o prêmio de risco brasileiro.
  • Coesão da oposição: a fragmentação dificulta a formação de bloco competitivo para 2026.
  • Relação com EUA: eventual pressão de figuras como Marco Rubio (Secretário de Estado) sobre o Brasil depende da agenda trumpista.

O agronegócio, a bancada evangélica e setores do mercado financeiro — pilares da coalizão bolsonarista — mantêm silêncio público. A ausência de manifestações de apoio explícito ao manifesto é, por si só, um dado relevante.

O fator Trump e a variável Rubio

Donald Trump, em entrevistas recentes, criticou o processo eleitoral brasileiro pela terceira vez, mas recusou-se a envolver-se diretamente na “carta ao nojo brasileiro”. O ex-presidente americano tem histórico de descartar aliados derrotados — “losers”, em sua terminologia.

Marco Rubio, chefe da diplomacia dos EUA e pré-candidato à Presidência, é conhecido por posição dura contra governos de esquerda na América Latina. A derrota republicana nas legislativas americanas de novembro, contudo, pode consumir a atenção da Casa Branca nas próximas semanas, reduzindo espaço para aventuras sul-americanas.

Cenários para os próximos meses

Três trajetórias são plausíveis:

  1. Isolamento progressivo: Flávio torna-se figura marginal, sem respaldo partidário nem internacional.
  2. Rearticulação tática: o PL usa o episódio para mobilizar a base radical, mas mantém discurso institucional público.
  3. Escalada externa: pressão diplomática dos EUA (sanções, declarações) caso a ala trumpista decida adotar a narrativa de fraude.

O que observar daqui para frente

Três indicadores dirão se o episódio foi marolinha ou virada de maré: (1) posicionamento formal da cúpula militar — até agora silente; (2) comportamento do PL nas votações econômicas no Congresso; (3) agenda de viagens de Flávio Bolsonaro e eventuais encontros com autoridades americanas. A resposta do mercado a cada sinal será o termômetro real do risco político.