Tecnologia

O segredo que expôs 58 mil câmeras em São Paulo por 11 meses

Painel do Smart Sampa mostrando milhares de câmeras em mapa de São Paulo, representando vazamento de 58 mil câmeras por 11 meses
Sistema Smart Sampa expôs 58 mil câmeras por 11 meses, comprometendo escolas, hospitais e agentes

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) exigiu a suspensão imediata do Smart Sampa, sistema de videomonitoramento da prefeitura de São Paulo, após falhas graves permitirem acesso não autorizado a 58 mil câmeras por quase um ano. A brecha expôs rotinas de escolas, hospitais e dados sensíveis de 6 mil agentes de segurança.

O problema veio a público em 20 de outubro, mas a vulnerabilidade persistiu por aproximadamente 11 meses. O que mais chama atenção não é apenas a escala, mas a simplicidade do erro: credenciais previsíveis, ausência de autenticação em dois fatores e logins expostos em repositório público.

O que estava ao alcance de qualquer um

Segundo a investigação do portal UOL, 181 combinações de login e senha ficaram acessíveis junto a orientações técnicas para replicar a interface da plataforma. Com isso, terceiros podiam visualizar em tempo real câmeras instaladas em:

  • Creches e escolas municipais
  • Hospitais e unidades básicas de saúde
  • Centros de atenção psicossocial (CAPS)
  • Vias públicas e equipamentos urbanos

Além das imagens, o vazamento incluía cadastros completos com CPF, nomes e placas de veículos — sem mencionar a possibilidade de inserir dados no sistema.

Por que isso vai além de um “bug técnico”

O CNDH classifica o dano como transindividual. Durante 11 meses, trajetórias de policiais, guardas civis, militares, advogados e jornalistas puderam ser mapeadas sem que soubessem. O risco de perseguição, intimidação ou vazamento de sigilo profissional é concreto e documentado.

A entidade aponta violações diretas da Resolução CNDH nº 17/2025, que rege o uso de reconhecimento facial em espaços públicos. Três artigos foram afrontados: a obrigação de segurança (art. 3º, §1º), a integridade de auditoria (art. 4º, V) e a supervisão contínua (art. 4º, VIII) — esta última evidenciada pelo fato de a imprensa, e não os controles internos, ter descoberto a falha.

Os próximos passos já estão em movimento

O conselho formalizou comunicação ao Ministério Público de São Paulo e ao Ministério Público Federal, recomendando a instauração de inquérito civil e o ajuizamento de ação civil pública contra o município. Há ainda notificação ao MP-SP pedindo a preservação dos registros e reparação por danos morais coletivos.

Até o fechamento deste texto, a prefeitura de São Paulo não se manifestou oficialmente sobre o pedido de suspensão nem sobre as medidas de contenção adotadas.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem acompanhamento nos próximos dias: a resposta judicial aos pedidos do CNDH, eventuais auditorias técnicas independentes no Smart Sampa e a postura da administração municipal quanto à transparência sobre o período de exposição. Para empresas que operam ou licitam tecnologias de monitoramento urbano, o caso vira referência obrigatória de o que não fazer em governança de acesso e gestão de vulnerabilidades.