O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, afirma que o presidente Lula prepara um governo mais ousado no social sem abrir mão da responsabilidade fiscal. A promessa: conciliar as duas agendas sem ceder nos ganhos anuais para a população.
Mas como isso será possível com a dívida pública em trajetória crescente e o mercado cobrando sinais claros? A resposta pode surpreender.
O equilíbrio que o mercado não espera
Fonteles, cotado para a Fazenda mas firme no cargo de governador, garante que todos os compromissos de campanha cabem dentro do arcabouço fiscal. Ele cita três programas-chave:
- Expansão do Pé-de-Meia — incentivo à permanência escolar
- Prospera MEI — pix de R$ 5 mil para microempreendedores
- Tarifa zero nos finais de semana — financiada por emendas de bancada
Segundo o governador, a equipe econômica já validou a exequibilidade de cada um ao longo dos quatro anos. A implantação será gradual.
Por que o superávit pode chegar ainda este ano
Fonteles revela um dado que passou despercebido: o governo caminha para fechar 2024 com pequeno superávit primário. “O presidente tem, sim, responsabilidade fiscal”, repete. A trajetória de melhora do resultado fiscal ano a ano sustenta a tese de que o ajuste já começou — só não foi na velocidade que o mercado gostaria.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
Juros altos: a equação que depende de um só fator
Para Fonteles, a queda da Selic está atrelada à clareza da trajetória dívida/PIB. Quanto mais sustentável o horizonte de médio prazo, menor a taxa. O crescimento econômico ajuda na conta: mais PIB no denominador reduz a razão naturalmente.
O governador piauiense conhece o caminho. No seu estado, adotou regra fiscal semelhante à federal, controlou despesa de pessoal e usou capacidade de endividamento para investimento público. Resultado: crescimento acima da média nordestina.
O Congresso e a reforma tributária: o que vem por aí
Fonteles não tem dúvida: Lula formará maioria ampla nas duas casas. A governabilidade, diz, será sólida. Sobre a alíquota do IVA — o TCU projeta 30% somando CBS e tributos subnacionais —, o governador remete à neutralidade: a carga total não pode subir. Ajustes finos virão no processo legislativo.
Mas há um fronte que pouca gente comenta.
Comunicação digital e big techs: a nova arena
Lula definiu a comunicação digital como ferramenta estratégica do quarto mandato. Dupla via: explicar ações e receber feedback em tempo real. Fonteles acredita que isso “aumenta muito a chance de acerto”.
Paralelamente, a regulação de plataformas ganha corpo. Não se trata de cercear, mas de equiparar crimes digitais aos reais e impedir uso algorítmico para manipular opinião pública. A Meta já foi acusada de impulsionar candidatos de direita na campanha.
O que observar daqui para frente
Três marcos definirão os próximos meses: o anúncio do pacote fiscal pós-férias de Lula, a posse de Fonteles no Piauí (que afasta rumores sobre a Fazenda) e os primeiros sinais da articulação congressual. Se a gradatividade dos programas sociais se confirmar e o superávit se materializar, a narrativa de “irresponsabilidade” perde força. O empresário que acompanhar esses sinais — não o ruído diário — terá vantagem na alocação de capital em 2025.
