O contrato futuro do trigo em Chicago despencou para US$ 6,10 o bushel — uma queda de 13% em relação ao pico de US$ 7,04 registrado no dia 10. No mercado interno, o Cepea aponta estabilidade: a tonelada no Paraná segue travada em R$ 1.564. Se a commodity ficou mais barata lá fora, por que o consumidor brasileiro ainda não sentiu alívio no bolso?
O que derrubou as cotações internacionais
A pressão vendedora ganhou força com a revisão da safra argentina. A estimativa saltou para 24 milhões de toneladas, bem acima dos 21 milhões previstos inicialmente. Embora não supere o recorde do ano passado, o volume alivia a oferta global.
Do lado da restrição, a União Europeia colhe 124 milhões de toneladas (2 milhões a menos que a previsão anterior), reduzindo seu potencial de exportação para 29 milhões. O Canadá produz 36 milhões de toneladas — queda de 11% ante 2025, mas ainda acima da média quinquenal de 33 milhões.
A Austrália adiciona 29,9 milhões de toneladas (recuo de 17%), enquanto Rússia e Ucrânia mantêm volumes estáveis, mas travados por dificuldades logísticas decorrentes do conflito. No consolidado do USDA, a produção mundial 2026/27 recua para 822 milhões de toneladas, contra 844 milhões no ciclo anterior.
Brasil: produção mínima e importação recorde
O cenário doméstico é o ponto de atenção para o empresariado. A Conab projeta colheita de apenas 5,7 milhões de toneladas — uma das menores da série histórica — frente a um consumo anual de 12 milhões.
O déficit obriga o país a importar pelo menos 7,1 milhões de toneladas, volume que se aproxima do recorde histórico. Paralelamente, as exportações brasileiras minguaram: apenas 970 mil toneladas embarcadas no ano, contra 2,3 milhões em todo 2025.
- Produção Brasil: 5,7 mi ton (Conab)
- Consumo interno: 12 mi ton
- Necessidade de importação: 7,1 mi ton
- Exportações 2024 (jan-out): 970 mil ton
O repasse que não acontece no varejo
A queda nas bolsas ainda não chegou à padaria. Segundo a Fipe, o pão francês acumula alta de 2,7% no ano em São Paulo, com avanço de 1,15% apenas nas últimas quatro semanas.
O descompasso é típico: moedores e indústria trabalham com estoques formados a preços médios mais elevados. Além disso, o câmbio e os custos logísticos internos — frete, energia, mão de obra — funcionam como amortecedores que retardam a transmissão de preços ao consumidor final.
Soja e milho: o contraponto do agroexportador
Enquanto o trigo pressiona a balança de importação, a soja bate recordes. A Anec projeta 6,2 milhões de toneladas embarcadas apenas no mês corrente, empurrando o acumulado de dez meses para 108 milhões de toneladas — praticamente igual ao total de todo o ano de 2025 (108,7 milhões).
O milho segue trajetória oposta: 26 milhões de toneladas exportadas até outubro, volume bem inferior aos 42 milhões do ano passado. A diferença reflete a quebra de safra e a prioridade do milho para consumo interno (etanol e ração).
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam os próximos passos: o ritmo de embarques argentinos nos portos do Río de la Plata, a evolução do dólar frente ao real — que define a paridade de importação — e a definição da safra brasileira de 2025, que começa a ser plantada no segundo semestre.
Para o gestor de custos, a sinalização é clara: a janela de oportunidade para travar preços de farinha e derivados abriu no mercado futuro, mas a materialização no caixa depende da velocidade do repasse cambial e da normalização da logística portuária na América do Sul.
