Uma usina nuclear que cabe em um caminhão, usa sal derretido como bateria e promete custar metade do preço convencional já está saindo do papel nos EUA. O projeto Kemmerer, da TerraPower, recebeu licença de construção em março de 2026 e pode redefinir a matriz elétrica global. Mas há um gargalo que quase ninguém comenta: o combustível.
O Brasil tem a tecnologia para resolver esse gargalo. E quase ninguém percebeu o tamanho da oportunidade.
Por que a indústria nuclear voltou à moda
Depois de Fukushima, o setor entrou em coma. O que o acordou não foi segurança — foi a necessidade de energia limpa que liga quando o operador manda. Solar e eólica não garantem isso. Hidrelétricas, sim, mas dependem de chuvas e geografia.
Pequenos reatores modulares (SMRs) surgiram como resposta. Fabricados em série, prometem:
- Custo por MW reduzido
- Prazo de construção encurtado
- Licenciamento mais simples
O reator que dispensa a cúpula de contenção
A usina de Kemmerer, no Wyoming, troca a água pressurizada por sódio líquido. O metal fundido absorve calor com eficiência e opera à pressão atmosférica. Resultado: zero risco de explosão por sobrepressão e economia estimada de 50% na obra civil.
O reator tem 345 MW nominais. Mas o pulo do gato está no armazenamento térmico por sais fundidos — uma “bateria de calor” que permite injetar até 500 MW por mais de cinco horas nos horários de pico. Isso casa perfeitamente com a intermitência de eólicas e solares.
Reaproveitando o passado carvoeiro
A usina nasce ao lado da termelétrica a carvão de Naughton, em desativação. A TerraPower vai reutilizar:
- Linhas de transmissão existentes
- Captação de água já instalada
- Mão de obra local, requalificada para operação nuclear
Testes operacionais estão previstos para o final da década. A licença da NRC (reguladora americana) saiu em março de 2026.
O obstáculo que ninguém vê: o combustível HALEU
O reator precisa de urânio enriquecido a 15,38% de U-235 — o chamado HALEU. Hoje, a oferta comercial é monopolizada pela Rússia. Os EUA correm para produzir internamente.
Em agosto de 2026, a startup Actinide anunciou sucesso na obtenção do material. Resta saber se a tecnologia escala com viabilidade econômica. Sem HALEU barato, o modelo SMR não decola.
Onde o Brasil entra nessa história
Países com matriz renovável alta (como o Brasil) são candidatos naturais a importar SMRs. Mas o Brasil tem duas vantagens raras:
- Grandes reservas de urânio
- Domínio da ultracentrifugação — rota mais consolidada para enriquecimento
Em vez de comprar reator e combustível, o Brasil pode produzir o próprio HALEU. Garante autonomia para futuros reatores nacionais e ainda se posiciona como fornecedor estratégico para o mercado global emergente.
O que observar daqui para frente
Acompanhe três marcos: a validação comercial da produção de HALEU fora da Rússia, o cronograma de testes em Kemmerer e eventuais movimentos do CNEN ou INB visando enriquecimento acima de 5%. Se a tecnologia de sal fundido e sódio provar viabilidade econômica, a janela para o Brasil se tornar player relevante na nova cadeia nuclear abre nos próximos cinco anos. Quem chegar primeiro com HALEU competitivo dita as regras do jogo.
