Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição e assume o quarto mandato com a faca e o queijo na mão para resolver o maior vulcão da economia brasileira: a dívida pública a 82,9% do PIB e juros reais nas alturas. O desafio não é técnico, mas político, e a resposta do mercado nas urnas foi imediata e violenta.
Na semana seguinte ao segundo turno, o dólar saltou quase 9% e os juros de longo prazo avançaram mais de 2,3 pontos percentuais. A volatilidade assusta, mas esconde um detalhe crucial: o quadro fiscal real não é de descalabro.
O abismo entre o pânico do mercado e a realidade dos números
Muita gente não sabe, mas o déficit primário vem encolhendo consistentemente. Saiu de 2,4% do PIB em 2023 — ano atípico, pesado por precatórios e dívidas com estados — para 0,4% em 2024. A projeção para 2025 e 2026 mantém a casa de 0,5% e 0,4%, respectivamente. Não há descontrole; há um déficit baixo, mas teimoso, que impede a geração de superávits necessários para abater a conta de juros.
O nó está no crescimento do gasto primário: roda a 6% ao ano em termos reais, triplicando o ritmo do PIB. Enquanto essa dinâmica não mudar, a dívida não estabiliza e o Banco Central não tem espaço para cortar a Selic com força.
O plano que o mercado ainda não “comprou” — mas deveria
A aposta central é que a experiência prévia do presidente fala mais alto que o ceticismo atual. Nos dois primeiros mandatos (2003-2010), a média de superávit primário foi de 2,4% e 1,9% do PIB, respectivamente. A dívida caiu, a externa virou residual e as reservas explodiram. O legado é de responsabilidade, não de aventura.
Para repetir a dose, no entanto, o ajuste não pode ser apenas no papel. Precisa ser anunciado já, completo e gradual. A credibilidade nasce da previsibilidade. Veja os pilares que compõem a equação:
- Gastos sob o teto do arcabouço: fim da expansão real acima do limite legal.
- Corte de supersalários e renúncias fiscais: onde está o “dinheiro esquecido” do Orçamento.
- Revisão da previdência militar e emendas parlamentares: dois tabus que consomem bilhões.
- Desvinculação de receitas e reforma da renda: taxar fundos exclusivos e títulos isentos dos mais ricos, sem repetir o erro de focar só no lado da arrecadação.
Por que o gradualismo é a única saída possível
Um ajuste brusco jogaria a economia em recessão e destruiria o piso social que sustenta a base política do governo. O “caminho do meio” — impopular para os extremos, mas necessário — exige que o governo sinalize o rumo final agora, para que o mercado precifique a convergência e o BC inicie o ciclo de queda de juros.
O erro do mercado hoje é precificar “terra arrasada”. O erro do governo seria subestimar a necessidade de sinais claros. A história mostra que Lula sabe fazer superávit; a dúvida é se o fará num Congresso mais fragmentado e com uma base social mais exigente.
O que observar nas próximas semanas
O termômetro não é o discurso de posse, mas a velocidade da montagem da equipe econômica e o envio do plano plurianual ao Congresso. Se houver nomes com trânsito no mercado e um cronograma crível de metas de superávit (a meta oficial perdida era 1% do PIB para 2026), a onda pessimista se desmancha sozinha.
Caso contrário, a conta dos juros altos continuará sendo paga pelo contribuinte — e pelo crescimento que não acontece. A bola está no centro do campo: o governo tem o desenho da jogada, falta apenas executar.
