Alphabet, Microsoft e Amazon divulgam balanços nesta semana com expectativa de crescimento de receita de dois dígitos. O mercado, porém, ignora os números positivos e fixa os olhos em um único detalhe: o ritmo dos gastos com inteligência artificial. A tolerância para despesas de capital elevadas simplesmente evaporou.
Na semana passada, a Meta Platforms serviu de alerta. A ação caiu 6,1% em um único dia após a empresa elevar o teto de investimentos futuros para US$ 825 bilhões — um acréscimo de US$ 125 bilhões. O preço dos swaps de inadimplência (CDS) da companhia bateu recorde, sinalizando que o mercado cobra caro pelo endividamento necessário para sustentar essa expansão.
O gatilho da Meta que assustou o mercado
O movimento foi violento e rápido. No after-hours da quarta-feira, os papéis subiram com resultados sólidos. Na abertura de quinta, a narrativa virou: o guidance de capex assustou mais do que o lucro animou. Gestores como John Belton, da Gabelli Funds, resumem o sentimento: “investidores estão absolutamente sem nenhuma tolerância para despesas de capital mais elevadas”.
Esse nervosismo não acontece no vácuo. O Brent opera no maior nível desde abril, o rendimento do Treasury de 10 anos voltou a cair abaixo de 5% e a geopolítica adiciona volatilidade com o conflito no Irã e as eleições legislativas nos EUA na próxima semana. O cenário macro torna o custo de capital mais caro e a paciência, mais curta.
Por que a conta da IA não fecha (por enquanto)
O cerne da preocupação é o retorno sobre o investimento. A CoreWeave, provedora de nuvem para IA, expôs o risco de financiar infraestrutura com dívida em ambiente de juros altos. A Gartner estima que US$ 3,5 trilhões em ativos de IA podem sofrer perda de valor até 2030 se a receita não acompanhar o capex.
Outro sinal amarelo veio da Anthropic, laboratório que prepara IPO. A receita do terceiro trimestre cresceu 45% ano a ano — ritmo inferior ao trimestre anterior. Para Kevin Shea, da BNY Wealth, “o mercado aplica um desconto ao crescimento das megacaps porque está cada vez menos convencido de que seja sustentável”.
O desempenho que ninguém comemora
O índice Bloomberg Magnificent Seven sobe magros 6,5% no ano, contra 11% do S&P 500 e 15% do Nasdaq 100. Apenas Apple e Nvidia superam o benchmark. Curiosamente, um S&P 500 excluindo as gigantes de tecnologia avança 12% em 2026. O liderança de mercado mudou de lado.
- Mag 7 YTD: +6,5%
- S&P 500 YTD: +11%
- Nasdaq 100 YTD: +15%
- S&P 500 ex-Big Tech: +12%
Valorações atrativas, mas com asterisco
O otimismo de longo prazo persiste. O Mag 7 negocia a menos de 24 vezes o lucro estimado — abaixo da média de 10 anos (29x) e do pico de 33x há um ano. Microsoft e Alphabet estão com desconto histórico; o múltiplo da Amazon beira 20x, nível não visto desde 2008.
Os lucros do grupo devem crescer 34% este ano (vs. 29% do S&P 500) e as projeções para 2027 saltaram de 19% para 27% em dois meses. Tiffany McGhee, da Pivotal Advisors, resume: “A expectativa está sendo elevada ainda mais. Quando cumprem, o mercado fica decepcionado. Eles querem resultados extraordinários”.
O que observar daqui para frente
O ponto de inflexão é o fluxo de caixa livre. O ciclo de investimentos transformou geradoras de caixa em consumidoras de capital. Se as próximas conferências trouxerem revisões positivas de FCF, o alívio será imediato — sinal de que o pior do capex passou. Se houver novos cortes nas projeções, a pressão se espalha para provedores de nuvem de nova geração e toda a cadeia de data centers. Kim Forrest, da Bokeh Capital, avisa: “Os quatro cavaleiros da expansão da nuvem parecem irredutíveis. Eles seguirão gastando, o que mantém os investidores acordados à noite”.
