Londres fecha nesta segunda-feira (26) um trecho de 800 metros de sua vitrine mais icônica para carros, apostando 150 milhões de libras (cerca de R$ 1 bilhão) na volta do prestígio perdido. A medida atinge o trecho entre a Selfridges e a Ikea, mas o verdadeiro teste não é o trânsito — é o bolso dos varejistas.
Por décadas, a Oxford Street sangrou lojas de departamento e viu aluguéis desabarem. Agora, marcas asiáticas e gigantes globais correm para alugar cada metro quadrado vago. O que mudou?
A virada de chave: de “rua decadente” a disputa por ponto
O cenário até pouco tempo era desolador. A taxa de vacância bateu 13,7% em 2022, e os aluguéis no trecho nobre (lado oeste) caíram de £ 1.100 por pé quadrado (2016) para £ 600 na pandemia (2021), segundo a Savills. O vazio foi preenchido por lojas de souvenirs e doces, acelerando a sensação de declínio.
O fim do *tax-free* para turistas deu o golpe de misericórdia na receita imediata. Mas, nos bastidores, a estrutura mudava: os esqueletos da Debenhams e House of Fraser viraram escritórios premium, e uma nova corporação de desenvolvimento local passou a aprovar projetos em tempo recorde.
Os números que explicam a corrida das marcas
O termômetro virou de vez nos últimos 12 meses. A vacância despencou para menos de 1%, com 39 novos contratos assinados. Olha quem chegou ou expandiu:
- Miniso e Pop Mart: chinesas de lifestyle transformando espaços em “parques temáticos” de varejo.
- Zara, Nike, Puma, Mango: apostando em *flagships* conceituais.
- Warner Bros: abre no próximo mês sua maior loja Harry Potter no Reino Unido.
“É o único lugar no centro de Londres com espaços amplos em prédios de personalidade onde dá para se destacar”, resume Sam Foyle, da Savills.
Elizabeth Line: o fator oculto da valorização
Não foi só o calçadão que atraiu o capital. A inauguração da Elizabeth Line encurtou drasticamente o deslocamento dos subúrbios leste e oeste até a Oxford Circus e Bond Street. Para o varejo de massa, fluxo de gente é oxigênio — e a linha nova injetou esse ar direto na veia da rua.
Resultado: os aluguéis no lado oeste já recuperaram para £ 850/pé quadrado. Ainda assim, estão 20% abaixo do pico de 2016. Há espaço para subir.
O risco que ninguém comenta: pedestres ainda não voltaram todos
Apesar da euforia imobiliária, o fluxo de pedestres não retornou ao nível pré-pandemia. Padrões de trabalho híbrido e mudanças de hábito seguram o volume. Dee Corsi, da New West End Company, admite: o tráfego de pessoas é a variável que ainda não fechou a conta.
Moradores e usuários de transporte público reclamam das rotas alteradas. A controvérsia política existe, mas o varejo — de John Lewis a Miniso — fechou fileira a favor do projeto. A aposta é que “lugar para ficar” gere mais receita que “rua para passar”.
O que observar daqui para frente
O fechamento de hoje é apenas a largada. O plano de £ 150 milhões prevê praças programáveis, eventos e mobiliário urbano para competir com Quinta Avenida, Champs-Élysées e Via del Corso. Se o pedestre não vier espontaneamente, a programação terá de trazê-lo.
Para investidores e lojistas, o sinal de alerta é a recuperação do fluxo humano nos próximos trimestres. O aluguel já precificou a esperança; o faturamento das lojas é que vai confirmar se a aposta no calçadão paga a conta.
