O segundo turno das eleições em João Pessoa foi marcado por falhas graves no transporte público que impediram eleitores de chegar às urnas. Ônibus urbanos não paravam nos pontos e veículos intermunicipais simplesmente não saíram das garagens. A situação escalou para intervenção direta do governador e do Ministério Público ainda durante a votação.
Vídeos amadores e dezenas de denúncias formais expõem um cenário de desrespeito à gratuidade garantida por lei. O impacto direto foi a potencial abstenção forçada em bairros periféricos e cidades do interior.
O que aconteceu nas ruas da capital
Relatos concentrados nos bairros das Indústrias, Grotão, Funcionários e Colinas do Sul descrevem o mesmo padrão: veículos lotados ignorando passageiros nos pontos de parada. No Bairro das Indústrias, um registro em vídeo mostra um coletivo passando reto enquanto dezenas de pessoas aguardavam.
O Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano (Sintur-JP) atribuiu os atrasos ao trânsito intenso e alegou que, quando um ônibus não parava, o seguinte fazia o embarque. A explicação, no entanto, não contempla o tempo de espera adicional nem a lotação do veículo subsequente.
A Superintendência de Mobilidade Urbana (Semob-JP) deslocou fiscais para as ruas, mas a fiscalização ocorreu de forma reativa, após as denúncias já terem viralizado nas redes sociais.
O gargalo intermunicipal: interior isolado
O problema mais severo ocorreu na rodoviária de João Pessoa. Eleitores de cidades como Mamanguape, Rio Tinto, Areia e Bananeiras encontraram guichês abertos, mas plataformas vazias. A gratuidade do transporte intermunicipal, direito assegurado no dia da eleição, não foi operacionalizada pelas empresas.
- Mamanguape: Site indicava saída às 7h; passageiros informados de que só haveria vaga após o meio-dia.
- Rio Tinto: Eleitor chegou antes das 6h e não encontrou nenhum veículo disponível.
- Areia e Bananeiras: Relatos de divergência total entre horários publicados e frota real.
O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PB) admitiu dificuldade em acessar os sistemas das empresas devido à ausência das equipes administrativas nas garagens — um detalhe operacional que expõe a fragilidade do plano de contingência.
Reação institucional em tempo real
A pressão popular forçou uma resposta coordenada incomum para um domingo de eleição. O governador Lucas Ribeiro acionou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB) e o prefeito Léo Bezerra ainda pela manhã, buscando garantias jurídicas para o deslocamento dos votantes.
Paralelamente, a Ouvidoria do Ministério Público da Paraíba (MPPB) contabilizou cerca de 30 denúncias formais até o meio da tarde. O número é parcial, já que as promotorias permaneceram abertas para receber novos registros durante todo o dia. Os casos foram distribuídos aos promotores eleitorais de plantão para apuração imediata.
O que observar nos próximos dias
A apuração das denúncias pelo MPPB e pelo TRE-PB deve ditar os desdobramentos administrativos e, eventualmente, eleitorais. Se comprovado que a falha no transporte alterou o resultado em alguma zona, cabe ação de impugnação — cenário raro, mas juridicamente possível.
Para o setor privado, o episódio acende um alerta sobre a gestão de contratos de concessão e a necessidade de planos de contingência auditáveis para datas de alta demanda cívica. A transparência dos dados de frota em tempo real deixa de ser diferencial tecnológico e passa a ser exigência de accountability democrática.
