No segundo turno das eleições 2026, o direito ao voto esbarrou em uma barreira física: a falta de transporte. Na rodoviária de João Pessoa, passageiros madrugaram para embarcar rumo aos domicílios eleitorais e encontraram plataformas vazias e horários que só existiam nos sites das empresas. A logística falhou justamente no dia em que a presença do eleitor era obrigatória.
O desencontro de horários que deixou eleitor a pé
Relatos colhidos desde as primeiras horas deste domingo (25) apontam para uma discrepância gritante entre a venda online e a realidade do terminal. Um passageiro com destino a Mamanguape, no Litoral Norte, comprou passagem para as 7h; ao chegar ao guichê, soube que o próximo veículo sairia apenas depois do meio-dia.
O mesmo roteiro se repetiu para cidades como Rio Tinto, Areia e Bananeiras. Outro eleitor afirmou ter chegado à rodoviária antes das 6h e não encontrado nenhum ônibus disponível para Rio Tinto. A janela da manhã, crucial para quem precisava votar e retornar, simplesmente não operou na prática.
A versão do DER e o mistério das garagens vazias
Procurado, o Departamento de Estradas de Rodagem da Paraíba (DER-PB) confirmou a apuração junto às empresas, mas admitiu um obstáculo interno: as equipes administrativas das viações não estavam nas garagens para liberar os registros dos sistemas. Sem esse acesso, o órgão não conseguiu auditar a frota em tempo real.
Em nota, o departamento sustentou que os guichês funcionaram normalmente e que “várias viagens foram disponibilizadas durante a manhã”, alegando que os veículos não saíram com lotação completa. A explicação, no entanto, não explica por que passageiros em fila foram informados da inexistência de veículos para horários já programados.
Caos também nas linhas urbanas: motoristas ignorando pontos
O problema não se limitou ao intermunicipal. Em João Pessoa, denúncias de atrasos e recusa de parada multiplicaram-se nos bairros das Indústrias, Grotão, Funcionários e Colinas do Sul. Um vídeo gravado no Bairro das Indústrias flagra um coletivo passando direto por passageiros aguardando no ponto.
Diante do cenário, o governador Lucas Ribeiro (PP) acionou o prefeito Léo Bezerra e o TRE-PB buscando soluções emergenciais. O Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano (Sintur-JP) atribuiu os atrasos ao trânsito intenso e à lotação atípica dos veículos ao longo do dia.
O que o Ministério Público descobriu até agora
A Ouvidoria do Ministério Público da Paraíba (MPPB) contabilizou cerca de 30 denúncias formais até o fechamento desta apuração, número considerado parcial pois as promotorias eleitorais seguiam abertas. Os registros englobam:
- Ausência de gratuidade no transporte intermunicipal;
- Veículos que não pararam nos pontos de embarque;
- Frota insuficiente para a demanda do pleito.
Os casos foram distribuídos aos promotores eleitorais de plantão para as providências cabíveis, o que pode resultar em inquéritos ou ações civis públicas nos próximos meses.
O que observar daqui pra frente
O TRE-PB ainda não se manifestou oficialmente sobre a existência de denúncias formais protocoladas diretamente no tribunal. A apuração do DER-PB junto às concessionárias continua aberta e a promessa é de divulgar um relatório consolidado sobre a frota real operante na manhã do dia 25.
Para o eleitor, a lição prática fica: em pleitos futuros, a dependência exclusiva do transporte público programado representa risco real de deslocamento. Ajustes na fiscalização de horários e na obrigatoriedade de frota reserva em dias de votação devem entrar na pauta dos órgãos de controle antes de 2028.
