Uma reportagem de fôlego publicada pela revista piauí expõe as engrenagens que moveram as negociações suspeitas de vacinas durante a pandemia — e conecta esse passado a um escândalo atual que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O fio condutor: o uso de acesso privilegiado e favores pessoais para influenciar decisões de Estado.
Em julho de 2021, enquanto o Brasil registrava uma morte por minuto por Covid-19, dois empresários ligados à Precisa Medicamentos levaram o senador Flávio Bolsonaro para um passeio de lancha no lago Paranoá. A bordo: três garotas de programa e um Rolex dourado ofertado ao parlamentar.
O passeio que não virou contrato — mas abriu portas
Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano diziam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, fabricante da Covaxin. O objetivo era fechar acordo com o governo federal. O passeio não rendeu contrato imediato: só em janeiro de 2021 o Ministério da Saúde demonstrou interesse pela vacina.
Nesse intervalo, a negociação mudou de figura. O próprio presidente Jair Bolsonaro passou a apoiar a compra, e o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, entrou em cena. O novo formato previa 33 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, financiadas por 12 grandes empresas: metade para seus funcionários, metade para o SUS.
A conta que não fechava
O preço proposto chamava a atenção:
- US$ 23,79 por dose — quase quatro vezes o valor de mercado (US$ 5,25)
- Nenhuma justificativa técnica para o sobrepreço
- Nove das 12 empresas abandonaram o consórcio logo após o anúncio
Foi a única operação de compra de vacinas que teve respaldo direto do então presidente. Com 226 mil mortos, o tema foi silenciado.
Do passado ao presente: o método Vorcaro
Anos depois, o mesmo padrão reaparece. A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a investigação de festas organizadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A regra era clara: celulares proibidos na entrada.
A defesa de Vorcaro classificou a cobertura como “sensacionalismo”. Mas o próprio empresário admitiu, em declaração pública: “Esse é meu business” — referindo-se ao uso de “encanto feminino para amolecer poderosos corações”.
Nomes conhecidos, recrutadores identificados
Não há mistério sobre a logística. Os responsáveis pelo recrutamento das convidadas são conhecidos. A estrutura era profissional, voltada a criar ambientes onde decisões poderiam ser influenciadas longe de olhares e registros.
A investigação da PF mira justamente essa interface entre poder privado e público: quem frequentava, o que era discutido, e quais contrapartidas surgiam depois.
Por que isso importa agora
Passado o período eleitoral, a tendência é que o tema ganhe tração. O Supremo terá de decidir se autoriza a apuração. Se autorizar, podem vir à tona:
- Lista de participantes frequentes dos eventos
- Eventuais pagamentos ou benefícios cruzados
- Conexões com decisões regulatórias, legislativas ou judiciais
O que observar daqui para frente
Dois movimentos merecem atenção nos próximos meses. Primeiro: a tramitação do inquérito no STF — prazos, relator, eventuais pedidos de arquivamento ou diligências. Segundo: a reação do mercado e de instituições de controle (TCU, CGU, Ministério Público) caso nomes de autoridades ou grandes empresas apareçam nos depoimentos.
O padrão histórico mostra que escândalos desse tipo avançam em ondas: reportagem → investigação → delação → consequências políticas. A lancha no Paranoá foi a primeira onda. As festas sem celular podem ser a próxima.
