Economia

Marcas de luxo evaporam R$ 1,4 tri: o que está por trás do tombo histórico

Logos de marcas de luxo como LVMH e Hermès com seta descendente simbolizando perda de R$ 1,4 tri em valor de mercado
As seis maiores marcas de luxo europeias perdem R$ 1,4 trilhão em valor de mercado com a retração do consumo chinês.

Os seis maiores grupos de luxo da Europa viram 251 bilhões de euros (R$ 1,4 trilhão) sumirem de seu valor de mercado apenas neste ano. LVMH e Hermès sozinhas respondem por quase 90% dessa sangria. O gatilho tem endereço certo: a China parou de comprar como antes.

A retração não é um susto passageiro. Resultados do terceiro trimestre divulgados neste mês por LVMH, Kering e Hermès confirmam que o setor entrou em um ciclo de contração que já dura anos — e as expectativas, já rebaixadas, ainda não foram batidas.

O motor chinês engasgou

Por mais de uma década, o consumidor chinês puxou o crescimento global do luxo. Hoje, uma crise imobiliária prolongada e o derretimento da bolsa local secaram a confiança — e o bolso — desse público. Nos últimos seis meses, as vendas no varejo da China cresceram, em média, menos de 0,5% ao mês. No ano anterior, o ritmo era outro.

“A recuperação que o setor esperava entrou em compasso de espera”, resume Luca Solca, analista da Bernstein. O diagnóstico ecoa nos balanços:

  • LVMH: vendas para clientes chineses na divisão de moda e couro caíram na faixa intermediária dos 10% no terceiro trimestre.
  • Kering (Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta): tombo de 15% a 20% nas vendas para chineses no mesmo período — aceleração da queda frente ao trimestre anterior.
  • Hermès: divisão de prêt-à-porter e acessórios recuou 2% globalmente, com o CFO Eric du Halgouët citando a queda da bolsa chinesa e uma ofensiva contra patrimônios no exterior.

Novo imposto e bolsa em queda: o cenário piora

Desde esta semana, Pequim passou a cobrar 20% de imposto sobre dividendos e juros obtidos via trusts no exterior. Paralelamente, o índice CSI 300 — termômetro das 300 maiores ações chinesas — despencou 19% em quatro meses, apagando mais de US$ 2 trilhões (R$ 10 trilhões) em valor. O pano de fundo: medo de bolha em inteligência artificial e consumo doméstico fraco.

Nick Anderson, do Berenberg, admite: a atualização da Hermès deixou “mais perguntas que respostas”. O temor é que a exposição à China e a dependência de consumidores aspiracionais — aqueles que esticam o orçamento para entrar no luxo — sigam pressionando receitas.

O refúgio no topo da pirâmide

Nem tudo é ruína. O segmento ultra-premium resiste. Bolsas Birkin e afins da Hermès cresceram 10,8%. Joias brilharam: Tiffany (LVMH) e Boucheron (Kering) entregaram expansão de dois dígitos no trimestre. O cliente de altíssima renda, menos sensível a ciclos, segue comprando.

Mas a base da pirâmide treme. Dados de cartões de crédito do Citi mostram quedas de pelo menos 4% nos gastos de luxo nos EUA em julho, agosto e setembro. Bolsas laterais e gasolina cara esfriaram o ímpeto. A Kering, mais exposta ao consumidor aspiracional de classe média, sente mais; a Hermès diz que seu cliente americano mantém o ritmo.

O que observar daqui para frente

Com China em compasso de espera e EUA perdendo fôlego, a maioria das casas “não tem nada melhor a fazer senão tentar se tornar mais eficiente enquanto espera o retorno dos consumidores”, nas palavras de Solca. A agenda imediata: corte de custos, gestão de estoque e proteção de margem.

Três variáveis ditam o próximo capítulo: (1) se Pequim estimula de fato o consumo interno; (2) se a bolsa chinesa estanca a sangria; (3) se o Federal Reserve inicia cortes de juros robustos, aliviando o bolso americano. Até lá, a ordem é caixa forte e paciência.