O próximo ocupante do Planalto assumirá com aprovação inicial abaixo de 40% e um terço do eleitorado já o rejeitando — um padrão sem precedentes na redemocratização. Dados do Datafolha mostram que nem Lula 3 nem Bolsonaro romperam a barreira dos 38% de “ótimo ou bom” em qualquer momento. A diferença em relação a antecessores não está apenas no teto baixo, mas no piso alto de rejeição desde o primeiro dia.
Essa armadilha muda tudo para quem toma decisões de investimento, contratação ou expansão no Brasil. A instabilidade não é mais conjuntural; virou variável estrutural.
Por que os números atuais assustam mais que os de Collor ou Dilma
Fernando Henrique, Lula 1 e 2 e Dilma 1 chegaram a patamares muito superiores de popularidade antes de caírem. FHC 2 e Dilma 2 caíram por choques agudos — planos econômicos que falharam, recessão profunda, escândalos pontuais. O que vemos agora é outra coisa: uma insatisfação crônica, difusa, que sobrevive a ciclos econômicos distintos.
Três forças alimentam esse quadro, segundo analistas de risco político:
- Década perdida (2014–2023): renda estagnada, endividamento das famílias, precarização do trabalho e expectativa de mobilidade social em queda.
- Polarização algorítmica: redes sociais que recompensam o conflito e punem a mediação, transformando discordância em inimizade.
- Onda global anti-incumbência: governantes de todo o espectro ideológico perdem reeleição há quase dez anos — de Trump a Macron, de Macri a Scholz.
O que 2026 e 2027 reservam para a economia real
A eleição de 2026 deve repetir a divisão acirrada. Quem vencer, assume sob crise difusa e Congresso hostil. O ano seguinte, 2027, projeta-se difícil: salários contidos, emprego fraco, benefícios sociais sob pressão e risco real de recessão técnica.
A disputa por recursos públicos será feroz. Dois cenários-base emergem:
- Cenário Lula 4: presidente emparedado, dependendo de maiorias instáveis para governar.
- Cenário Bolsonaro 2: início de mandato focado em revanches institucionais e anistias, com custo político imediato.
Em ambos, promessas de campanha não cumpridas — os “estelionatos eleitorais” — corroerão o pouco capital político disponível nos primeiros meses.
O semipresidencialismo de fato: Congresso como árbitro final
A história recente ensina: presidentes sem popularidade e sem base parlamentar ou caem (Collor, Dilma) ou entregam o governo ao Centrão (Temer, Bolsonaro). Desde 2014, quando o bloco se consolidou como poder de veto e agenda, o regime brasileiro opera como um semipresidencialismo sob chantagem — ou, nas palavras de cientistas políticos, um “semiparlamentarismo de avacalhação”.
Isso significa que a governabilidade não depende do voto popular, mas da negociação diária com um Congresso fragmentado e fisiológico. Para o setor privado, a leitura é clara: reformas estruturais dependem de coalizões caras e instáveis; medidas provisórias viram moeda de troca; agenda de longo prazo é refém do calendário eleitoral.
Saídas possíveis — e por que nenhuma é rápida
Três trajetórias podem alterar esse equilíbrio ruim, mas todas exigem tempo e condições que não estão postas:
- Grande aliança de centro-esquerda: isolaria a extrema direita, mas exige convergência programática que hoje não existe.
- Erosão institucional pela extrema direita: mudaria as regras do jogo, elevando risco sistêmico e insegurança jurídica.
- Sucesso econômico extraordinário: resolveria a base do descontentamento, mas está fora do horizonte dos próximos anos — o endividamento público e o cenário externo não permitem.
Planos conservadores, na economia e na política, podem estabilizar a situação no curto prazo. Mas “estabilizar” num ambiente de baixo crescimento e alta rejeição significa apenas administrar a deterioração.
O que observar daqui para frente
O próximo presidente começa fraco. A incógnita é como governo e Congresso reagirão a essa fraqueza — se negociarem regras de convivência mínimas ou se radicalizarem a ponto de romper a barreira institucional. Para quem decide alocar capital no Brasil, três indicadores valem mais que pesquisas de opinião:
- Capacidade do Executivo de aprovar ao menos uma reforma tributária ou administrativa consistente no primeiro ano.
- Comportamento do spread soberano e do câmbio frente a ruídos institucionais.
- Sinais de renovação nas lideranças partidárias — ou a perpetuação dos mesmos vetores de 2014.
A reorganização de forças políticas com novas lideranças não é opção retórica: é condição para evitar desastres duradouros. O relógio corre contra a capacidade do sistema de se refundar antes que a próxima crise aguda chegue.
